Campos do Jordão, SP, 07 (AE) - Fazia três dias que Maria Miraci Prichark ficava ali, na beira de um barranco da Vila Albertina, ora sentada, ora em pé, agoniada, enquanto os bombeiros escavavam a lama à procura do corpo do seu filho, Rodrigo, de 19 anos, que estava desaparecido. Várias pessoas juravam ter visto o momento em que o rapaz fora arrastado pela tempestade e ela já não tinha forças para acreditar em outra coisa. "Meu coração me diz que ele está aí, então, que achem logo para acabar com esse martírio", disse ela, minutos antes de alguém trazer a notícia: "Acharam, Maria".
A mãe atirou no chão o pedaço de cachorro-quente que comia sem vontade, só porque as pessoas insistiam que ela deveria comer, e correu por caminhos íngremes, passou por becos, vielas e quintais, até chegar ao local, 80 metros abaixo, onde o corpo foi parar. "É a mãe do menino", sussurravam , penalizados, os vizinhos que ela esbarrava em sua corrida desesperada. Queria ver o filho de qualquer jeito, limpar a terra do rosto dele com uma camisa que levava na mão. Foi contida pelos bombeiros, arrastada dali.
Pouco depois do meio-dia, os 40 bombeiros que trabalhavam na procura do corpo pararam para fazer um lanche. Estavam desanimados depois de ter escavado com pás e enxadas dois barrancos e três platôs, numa área enorme, sem sucesso. "Chega um e diz que ele estava com casaco vermelho, outro que ele estava com camisa cinza", disse o tenente Miguel Jodas, do 11º Grupamento. "Mais de 200 mil viram, só que ninguém sabe onde", completou, pedindo desculpas pela irritação e pelo cansaço.
"Não estou procurando roupa, estou procurando a pessoa", argumentou a mãe. "A senhora já registrou a ocorrencia no DP?", perguntou outro bombeiro exausto. "Já, já fiz", respondeu Maria, de olhos baixos. "Acho que eles não estão acreditando mas é lógico que aconteceu, viram quando a terra e as casas passaram por cima dele". Acidente - Foi na tarde de terça-feira. Rodrigo Ribeiro da Silva
que completaria 20 anos em maio e trabalhava como pedreiro, ajudava um tio a retirar os móveis da casa de táboas, coberta de zinco e apoiada em estacas, que estava em perigo. Escureceu, chovia muito forte e ele resolveu ir para casa mas foi apanhado pela enxurrada. "Estavam em dois, com água até o pescoço, um conseguiu escapar, o outro não", contou o pai, o motorista Leonides Ribeiro da Silva, de 41 anos. "Só pode estar soterrado
se não já teria tirado a gente dessa aflição".
Paranaenses de União da Vitória, viviam desde 83 em Campos do Jordão. Além de Rodrigo, têm Patrícia, de 21 anos, Priscila, de 17 e Dione Aleuir, de 12. Os bombeiros trabalhavam desde cedo, sob ameaça de deslizamento do barranco em cima e na parde de baixo; em alguns pontos do terreno escorregadio com água até os joelhos porque havia um mina. Próximo, curiosos atrapalhavam e irritavam ainda mais. Não podiam usar máquinas para não aumentar o risco. Separados deles pelo barranco, estavam os pais do menino, os irmãos, os amigos.
Quando os bombeiros interromperam um pouco o trabalho para comer,um parente trouxe sanduíches e refrigerante. "Come, Maria, voce precisa comer", disse Selma Farias, amiga há mais de 15 anos. Ela mordeu o pão, fez esforço para engolir e parou quando começou uma correria lá embaixo. Correu para uma mureta, espiou. "Não é ele não", tentaram tranquilizá-la. "Minha esperança está quase acabada", respondeu. Parecia conformada. Até que chegou a confirmação. "É uma mulher de fibra que criou os filhos com muito carinho", comentou Selma. "Não sei se a culpa é do prefeito, que não se importa com os pobres daqui, se é do destino, se é de Deus...". O bombeiros cobriaram o corpo e improvisaram um tapume até a chegada da Polícia Técnica.