Depoimento incrimina doleiro libanês na lavagem de dinheiro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de dezembro de 1999
Por Roberta Jansen 
Rio, 07 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico tem informações de que o doleiro libanês Khaled Aragi, acusado de lavar dinheiro do tráfico de drogas, movimentava 16 contas bancárias em nome de laranjas, em diversos estados. Os deputados pretendem pedir a quebra de sigilo bancário das contas porque estão convencidos de que Aragi lavava dinheiro não só para o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, como também para outros narcotraficantes.
"Não tenho dúvidas de que Khaled e o doleiro Omar Ayub eram os grandes lavadores de Beira-Mar", afirmou hoje o deputado Wanderley Martins (PDT-RJ), sub-relator da CPI. Aragi, que está preso, prestou depoimento hoje à CPI, na Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, e negou que conhecesse Beira-Mar. Ele admitiu, no entanto, a possibilidade de ter trocado dólar para o traficante. "Não pergunto o nome das pessoas que entram na minha loja", justificou o doleiro, que trabalha em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia.
Aragi também negou que trabalhasse em sociedade com Omar Ayub, que também é libanês e está foragido. Mas afirmou que trocava até US$ 70 mil por dia para o doleiro. "Não trocava sozinho, me juntava com outros patrícios e outros doleiros bolivianos para fazer o câmbio", explicou. "Na verdade, eu era laranja de Ayub." Ele também admitiu que seu sobrinho, Faid Aragi, tinha uma procuração de Ayub para movimentar uma conta bancária do doleiro em sua ausência.
Khaled Aragi contou também à CPI que, durante mais de dez anos, fazia câmbio ilegalmente em seu armazém de secos e molhados. "Todos fazem isso na fronteira", justificou. Somente há um ano, ele abriu uma loja de câmbio, a HWS-Turismo, que está em nome de Hercílio Rocha. "Como eu tinha problemas com a Receita Federal, abri a loja em nome dele", confirmou. Legalmente, Rocha tem 90% da sociedade e Aragi apenas 10%.
Na prática, no entanto, Rocha é funcionário de Aragi e recebe um salário de R$ 700 por mês. "Eu o ajudei muito", justificou. "Só por essas coisas que admitiu, ele está incorrendo nos crimes de sonegação fiscal e evasão de divisas", afirmou Wanderley Martins. Quando perguntaram ao doleiro se ele havia sido extorquido por um policial da Divisão de Repressão a Entorpecentes identificado como Alexandre, ele não quis responder. Alegou temer por sua segurança e de sua família.
FAB - A CPI ouviu também hoje o depoimento da boliviana Lyla Mirtha Ibañez Lopez, acusada de pertencer à quadrilha de traficantes responsável pelo embarque de cocaína no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), no dia 18 de abril. Os deputados têm em mãos a gravação, feita pela Polícia Federal, de uma conversa telefônica entre Lyla e o ex-policial civil Adilson Nunes, o Gina, na qual ela o orienta a ir a uma padaria, atrás do Motel Sky, na entrada da favela Beira-Mar, em Caxias. Tanto a padaria quanto o motel pertencem a Fernandinho Beira-Mar. Segundo a polícia, a padaria era ponto de distribuição da droga.
Lyla negou conhecer o traficante. "Fui a Caxias me encontrar com uma mãe-de-santo", disse. A deputada Laura Carneiro (PFL-RJ) perguntou se a mãe-de-santo atendia em uma padaria e Lyla não soube o que dizer.
A boliviana caiu em contradição diversas vezes ao longo de seu depoimento. "Está mais que comprovado que ela faz parte da quadrilha da FAB", afirmou o deputado federal Reginaldo Germano (PFL-BA). "Ela trazia a droga da Bolívia e distribuia com Beira-Mar."
Amanhã (08), a CPI fará uma vistoria no Aeroporto de Jacarepaguá, por onde, segundo denúncias, estaria entrando droga. À tarde, os deputados ouvirão o depoimento do traficante americano John Michael White, suspeito de ser o responsável pela conexão que usava aviões da FAB para transportar cocaína até a Europa. Na quinta-feira e na sexta-feira serão tomados os depoimentos dos oficiais que estavam de plantão na Base Aérea do Galeão no dia do embarque da droga. "Pretendemos também pedir a quebra do sigilo bancário dessas pessoas", informou Germano.


