‘‘O município é refém da usina’’. A declaração é do prefeito de Porecatu (85 quilômetros ao norte de Londrina), Dionísio Santos de Souza (PT), referindo-se à Usina Central Paraná, produtora de açúcar e álcool. Segundo Souza, a empresa é responsável pela maior arrecadação de impostos da cidade, além de gerar empregos diretos e indiretos. ‘‘Quando a usina tem problemas, a cidade toda se submete ao mesmo desconforto’’, analisou o prefeito.
Porecatu viveu momentos de tensão durante toda a semana em função da greve de trabalhadores da usina, que reivindicam salários de dezembro e 13º atrasados. A contraproposta apresentada pela direção da empresa, na sexta-feira, foi rejeitada pela assembléia, que reuniu mais de mil trabalhadores. Segundo a direção da usina, o 13º será pago nesta quarta-feira (24). O salário de dezembro e acordos rescisórios estão previstos para o dia 9 de fevereiro.
Revoltados com a empresa, alguns grevistas ameaçaram invadir as dependências da usina. Um grupo atirou pedras contra um dos prédios, quebrando vidros da janela. Ninguém ficou ferido.
O problema na usina atinge cerca de seis mil funcionários que estão sem receber pagamentos e acertos trabalhistas referentes à última safra, que terminou em dezembro. Durante o pico da safra, a usina chega a empregar até sete mil trabalhadores de Porecatu e dezenas de cidades da região. Municípios como Taciba e Nantes, no sul do Estado de São Paulo, enviam todos os anos centenas de empregados para o trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar.
Denúncias de diversas irregularidades são apontadas pelos funcionários, que preferem não se identificar, com medo de represálias. ‘‘Todo mundo na cidade, ou trabalha na usina, ou tem alguém da família lᒒ, afirmou um funcionário. A usina é acusada de não recolher o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), de descontar contribuição sindical e não repassar aos sindicatos locais.
Segundo os empregados, o recolhimento do INSS é lançado na folha de pagamento, mas a empresa não repassa à Previdência Social. Ainda segundo as denúncias, o pagamento das férias é irregular já que a usina repassa para todos trabalhadores um terço do valor do salário mínimo e não do salário real, conforme determina a legislação trabalhista.
Os funcionários também acusam a empresa de condicionar a contratação mediante pagamento da taxa de R$ 40,00. Segundo alguns empregados, a ‘‘doação compulsória’’ seria destinada a uma entidade assistencial presidida pelo diretor-administrativo da usina, Glauco Miguel Ferrigno. ‘‘Ele diz que ninguém é obrigado a doar, mas que ele também não é obrigado a contratar’’, diz o empregado.
Com a usina paralisada, com exceção dos serviços essenciais, os trabalhadores se concentram em frente aos portões de entrada. Efraim Cotrin, motorista da usina durante 8 anos, foi demitido e está cumprindo aviso prévio desde o dia 21 de dezembro. Ele ainda não recebeu ‘‘nem salário e nem os direitos trabalhistas’’. Cotrin diz que a empresa só depositou dois anos de FGTS. ‘‘Os seis anos restantes não estão na minha conta. A usina tem dinheiro, mas não paga por safadeza’’.
Outro motorista, que também prefere não ter o nome revelado, admite que a usina domina parte da população de Porecatu. ‘‘A gente precisa do serviço. Se denunciar, eles mandam embora. E aí, vamos trabalhar onde?’’, disse o motorista. Segundo ele, ‘‘os empregados vão dando um jeito enquanto o pagamento não sai. Fazer o quê?’’
De acordo com João Batista, vice-presidente do Sindicato dos Rodoviários de Londrina, ligado à usina, considera que existe um componente emocional forte entre os trabalhadores. Batista informou que essa não é a primeira vez que existe atraso em pagamento, mas a situação vem se agravando paulatinamente. ‘‘O descumprimento da palavra por parte da diretoria fez com que a usina caísse em total descrédito’’. Na opinião de Batista, a empresa tem realmente um papel crucial para economia da cidade, mas é preciso garantir a função social que ela exerce.

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