Denúncia de erro médico já completou um ano
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sábado, 12 de abril de 2003
Renê Muller<BR>Reportagem Local 
José Carlos Fortunato de Paula, 32 anos, entrou aos 15 para um mundo que não quer largar de jeito nenhum, o mundo dos temperos, das receitas, do sabor. Foi então, trabalhando em uma lanchonete e restaurante da rua Sergipe, na região central de Londrina, que aprendeu a cozinhar, e deixou a atividade de jornaleiro. Tudo corria bem. Ele era cozinheiro do Restaurante da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e de uma pizzaria. Mas no dia 22 de março de 2002, ao submeter-se a uma cirurgia de enxerto no ouvido, sua vida saltou fora dos eixos.
Fortunato saiu da cirurgia, realizada no Hospital Universitário (HU), em coma. E permaneceu assim por 20 dias. Ao recuperar os sentidos, apresentava problemas de equilíbrio, de locomoção e de fala. No início, sequer conseguia andar sem ajuda da mãe. Hoje se vira um pouco melhor, mas não tem como caminhar sem apoio por longos percursos. Precisa de ajuda para ir ao banheiro, e toma banho sentado em uma cadeira de área, com auxílio da mãe. Gasta pelo menos R$ 28,00 com táxi, para sair da casa, no Conjunto Aquiles Stenghel (zona norte), para passear ou comer uma pizza. Toma 14 comprimidos diariamente, a maior parte para evitar os espasmos e convulsões que o atacam. Não foram poucas vezes que acabou caindo no chão de cabeça, assustando não apenas os familiares mas os colegas do curso de gastronomia da Universidade Norte do Paraná (Unopar).
Mesmo com os problemas, Fortunato, que concluiu o ensino médio no Colégio de Aplicação, conseguiu passar no vestibular. Um ano e um mês depois, ele continua lutando. Mesmo abalado pela angústia de não saber se as sequelas podem ser superadas. ''Falam que eu vou ficar bom, mas quando, que hora?'', indaga, ao mostrar as dezenas de caixas e frascos de remédio que guarda para demonstrar sua situação. Pagando R$ 389,00 de mensalidade e R$ 85,00 ao mês para ir e vir da aula com uma van, pouco sobra para viver. Ou mesmo para sustentar a mãe e os três irmãos com quem vive, na Rua Vergílio Perin.
A advogada de Fortunato, Luceli Cerqueira Lopes, está entrando com uma ação contra o Estado e a UEL, que administra o HU. Pede uma indenização por danos morais e uma pensão vitalícia. ''Ele tinha uma expectativa de trabalho, ter uma casa própria, e tantos outros desejos que todo mundo tem, trabalhava para isso'', ressalta a advogada. ''Se não houver como reverter as sequelas, que ele pelo menos receba um dinheiro para comprar um carro, uma casa, já que as complicações reduziram a chance dele de ter um emprego e um dia-a-dia normal''.
Desde a divulgação do caso, a superintendência do HU mantém silêncio sobre as complicações de Fortunato, e só deve se pronunciar a respeito após concluída uma sindicância do Conselho Regional de Medicina (CRM), iniciada para apurar os procedimentos ocorridos antes, durante e depois da operação. Segundo o presidente do CRM de Londrina, José Luiz de Oliveira Camargo, a documentação foi enviada a Curitiba para a instalação da sindicância.
O promotor de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais e da Saúde Pública de Londrina, Paulo Cesar Vieira Tavares, encaminhou ao MP de Curitiba as provas documentais arroladas em três procedimentos administrativos que avaliam o caso. De Curitiba, elas foram repassadas para peritos do Ministério da Saúde, que irão analisar a documentação. ''Anexei alguns questionamentos à documentação, e espero até o final do mês o parecer do Ministério'', diz Tavares.


