Paris, 01 (AE) - O governo de Lionel Jospin está enfrentando seus dias mais difíceis desde sua investidura em junho de 1997. As suspeitas levantadas contra seu ministro de Economia, Dominique Strauss-Kahn, poderão abalar as bases de seu gabinete, construídas a partir da forte credibilidade dos ministros, até agora inatacáveis no plano moral.
Essa situação vinha sendo ilustrada por uma frase do próprio chefe do governo, recentemente, no Parlamento: "É indispensável restabelecer as regras da ética republicana."
Há dias, entretanto, Strauss-Kahn foi acusado de ter recebido 600 mil francos (US$ 100 mil) de honorários, para defender, como advogado, a seguradora dos estudantes franceses, Mnef, ainda antes de ser nomeado ministro. Um relatório da polícia científica revela que os documentos encontrados na Mnef para justificar sua intervenção teriam sido fabricados a posteriori, isto é, após novembro de 1996, época em que ele recebeu a remuneração.
Na França tem prevalecido uma espécie de "jurisprudência" desde os tempos dos governos dirigidos por Pierre Beregovoy e Edouard Balladur.
Quando um ministro é indiciado pela Justiça deve deixar seu posto. Foi o que ocorreu com Bernard Tapie, quando se envolveu no escândalo do Olympique de Marselha e do Crédit Lyonnais, durante a gestão do presidente François Mitterrand.
Mais tarde, no governo liberal de Edouard Balladur, os ministros Alain Carignon, das Comunicações, e Gerard Longuet, da Indústria e Comércio, foram obrigados também a deixar seus postos, tendo o primeiro deles cumprido pena de reclusão. O segundo foi absolvido. Só os indiciados pela justiça têm acesso ao processo judicial, inteirando-se dos fatos e preparando sua defesa, o que torna mais complexa a situação do ministro.
Por isso, esse choque constitui um rude golpe para os socialistas, no poder na França. De um lado, é a credibilidade do governo que pode ser atingida, pois se trata do ministro mais importante do gabinete francês. De outro, são os planos do Partido Socialista que poderão ser revistos. O socialistas vinham preparando a candidatura de Strauss-Kahn à prefeitura de Paris e a possibilidade de vitória, até então, era grande.
Há mais de 20 anos no poder, os gaullistas vinham perdendo prestígio na capital por causa de numerosos escândalos que envolvem a atual administração de Jean Tiberi, herança deixada por Jacques Chirac à Prefeitura quando eleito presidente. Ele se encontra em situação tão delicada que os principais líderes de seu partido, o RPR, não só o abandonaram, mas pedem sua demissão.
Quanto à posição de Strauss- Kahn, ela se complicou ainda mais neste fim de semana, obrigando-o a interromper bruscamente uma viagem ao Vietnã e retornar às pressas a Paris para reunir-se com seus advogados e o próprio Jospin - também surpreendido quando se encontrava do lado oposto do mundo, em visita oficial aos departamentos da Martinica e Guadalupe.
Por enquanto, Jospin e Strauss-Kahn estão se recusando a dar explicações, mas muito provavelmente o primeiro-ministro terá de responder às perguntas de uma oposição ainda prudente durante os debates de hoje na Assembléia Nacional. Hoje, o dirigente oposicionista Charles Pasqua foi o primeiro a solicitar a demissão do ministro socialista.
A própria agenda de Strauss-Kahn foi fortemente afetada. Ele anulou alguns compromissos e transferiu outros. A audiência prevista para amanhã às 11 horas com seu colega brasileiro, o ministro Pedro Malan, foi transferida para as 17h15, depois do debate na Assembléia Nacional. Por enquanto, Jospin mantém confiança integral no titular da pasta da Economia, deixando- o, entretanto, livre para qualquer decisão, incluindo a demissão.

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