Denúncia contra Maluf interrompe investigação do dossiê Cayman
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de julho de 1999
Por Edson Luiz 
Brasília, 06 (AE) - A Polícia Federal poderia ter chegado aos autores do dossiê Cayman, conjunto de documentos apócrifos envolvendo o presidente Fernando Henrique e outros políticos tucanos com uma suposta empresa sediada naquela paraíso fiscal, se o Ministério Público Federal não tivesse denunciado o ex-prefeito Paulo Maluf, o ex-presidente do Banco do Brasil Lafayette Coutinho e o pastor Caio Fábio DAraujo Filho pela divulgação dos documentos. Com a decisão, a PF não pôde continuar as investigações, embora já tivesse uma certeza: o dossiê foi produzido em Miami e era falso.
Durante os seis meses de investigação, a PF tinha como uma única pista sobre a procedência dos documentos o Estado de Alagoas. Entretanto, não chegou a nenhum nome, mas pretendia estender as investigações até as Bahamas, onde, segundo o dossiê
estariam abertas as supostas contas do presidente e dos ministros da Saúde, José Serra e das Comunicações, Sérgio Motta - morto em abril do ano passado - e do governador Mário Covas. Com a denúncia contra Maluf, Caio Fábio e Coutinho, o inquérito foi encerrado.
As últimas investigações feitas pela PF revelaram que existe mesmo a possibilidade de a conta existir. Porém, ela teria sido aberta por uma pessoa - que chegou a ser ouvida informalmente pela Polícia Criminal Internacional (Interpol). Na conta figuraria, provavelmente como sócios, Sérgio Motta e o americano Ray Terence. Mas, para a PF, isso não incrimina as autoridades. "Qualquer um pode abrir contas em paraísos fiscais, mesmo que não seja o correntista", diz uma fonte na corporação.
Terence, também ouvido pela Interpol, negou que tivesse aberto contas em seu nome e de Motta. Para esclarecer a história
a Polícia Federal pretendia solicitar à Justiça Federal e ao Supremo Tribunal Federal (STF) a quebra de sigilo bancário das autoridades envolvidas pelo dossiê para cruzar as informações com outras que já estavam sendo levantadas no exterior.
Para delegados que tiveram acesso ao caso, tudo foi feito em Miami, provavelmente por brasileiros, mas a idéia original teria sido concebida em Alagoas. Mas a PF não admite que possa haver influência do ex-presidente Fernando Collor de Mello. "Não temos nada sobre isso, mas sabemos que os documentos foram montados para causar impacto e de uma forma para que seus autores não fossem descobertos", afirmou uma fonte da Polícia Federal.
A PF tinha, inclusive, chegado ao nome de um provável suspeito de ter feito a intermediação entre a confecção dos documentos e os responsáveis por sua divulgação, que seriam, conforme o Ministério Público, o pastor Caio Fábio, Maluf e Lafayette Coutinho. O autor dos documentos - que a PF não revela o nome - chegou a dizer que poderia revelar toda a história, desde que autorizada por outra pessoa, que seria o principal responsável pelo dossiê.
Apesar de a denúncia do MP ter prejudicado as investigações, a Polícia Federal não condenou a decisão. Segundo delegados, os procuradores trabalharam sempre afinados com a polícia na apuração do caso. "Eles tinham elementos para denunciar as três pessoas e o fizeram", afirmou uma fonte da PF.


