Demósthenes diz que Brasil perderia entre R$ 70 bi e R$ 140 bi com crise bancária
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segunda-feira, 10 de maio de 1999
Por Liliana Enriqueta Lavoratti e Ribamar Oliveira 
Brasília, 11 (AE) - O ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Demósthenes Madureira de Pinho Neto, disse hoje (11) na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, não foi informado da operação de socorro aos bancos Marka e FonteCindam, por duas razões: a decisão era da alçada do BC e o ex-presidente Francisco Lopes entendeu "que o ministro Malan não precisaria ser informado". Demósthenes não soube informar os motivos da atitude de Lopes.
O ex-diretor do BC disse que seu compromisso diante da CPI "era apenas o de falar a verdade". As respostas de Demósthenes foram dadas depois de o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) perguntar como foi possível ocorrerem três encontros entre Malan
Lopes e o ex-diretor de Assuntos Internacionais sem que os dois alertassem o ministro sobre a gravidade da ameaça de risco sistêmico na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), em consequência de uma quebra do Marka e do FonteCindam.
"Nem mesmo no restaurante Francisco, na Academia de Tênis em Brasília, durante o jantar que os senhores tiveram na noite do dia 14 de janeiro, quando Lopes recebeu dois telefonemas do ex-diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch, o ministro foi notificado sobre o que angustiava vocês?", perguntou Suplicy. Foi nesse momento que Demósthenes revelou que a decisão de não informar Malan foi de Lopes. "A decisão era da alçada do Banco Central, assim julgou o ex-presidente", acrescentou Demósthenes.
Demósthenes Madureira de Pinho Neto disse que ficaria surpreso se soubesse que o ministro Malan tivesse tempo para se envolver com uma operação de US$ 50 milhões, quando "o País caminhava a passos largos para o abismo". Esse era o valor da ajuda ao banco Marka, segundo Demósthenes, pois representa a diferença entre o teto da banda cambial de R$ 1,32 e o valor do dólar vendido ao banco de Salvatore Cacciola de R$ 1,275.
O ex-diretor do BC estimou que o País perderia entre US$ 70 bilhões e US$ 140 bilhões se tivesse ocorrido uma crise bancária durante a mudança do regime cambial, em janeiro deste ano. "Esses seriam os gastos para socorrer o sistema financeiro pela inação do BC", afirmou ao justificar a venda de dólares a preços subsidiados ao Marka e FonteCindam.
Ele insistiu que o País "estava à beira da moratória externa e viveu um profundo pânico" entre 12 e 18 de janeiro. A tese de Demósthenes é de que nenhum País mudou tão radicalmente o regime cambial sem passar por uma crise bancária, com exceção dos Estados Unidos. Citou que o custo da crise bancária ocorrida na Indonésia equivaleu a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) daquele País, e de 14% do PIB na Coréia.
O ex-diretor do BC enfatizou que a preocupação do governo foi de evitar a destruição do principal instrumento de proteção ("hedge") dos agentes econômicos - os contratos no mercado futuro de câmbio feitos na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). "Seria uma irresponsabilidade o BC anunciar que existiam instituições financeiras inadimplentes na BM&F. O que estava em jogo não era o tamanho dessas duas instituições, mas o fato de possuírem 20% do total dos contratos de câmbio futuro vendidos na Bolsa naquele momento", ressaltou.
Demósthenes disse ainda que está satisfeito hoje ao enxergar "uma perspectiva extremamente rósea para a economia brasileira a partir do ano 2000". Esse quadro, segundo ele, se deve basicamente à não existência de uma crise bancária durante a mudança do regime cambial, à manutenção das reservas internacionais ao nível adequado de US$ 35 bilhões e a proteção oferecida ao setor privado à dívida em dólar, por meio da venda de títulos públicos federais cambiais.
O ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC informou que a avaliação de que a quebra dos bancos Marka e FonteCindam poderia detonar uma crise sistêmica foi unânime. Demósthenes disse que não participou diretamente das negociações de ajuda aos dois bancos e que seu papel foi apenas de operacionalizar a venda direta dos dólares às duas instituições financeiras.
Informou à CPI que é "prática comum" que os votos da diretoria sejam redigidos após a tomada das decisões e até mesmo no dia seguinte. Ele prestou esse esclarecimento ao ser questionado sobre o fato do BC ter formalizado o voto 006/99 no dia 15, quando a decisão de venda de dólares para instituições financeiras em dificuldades na BM&F ocorreu no dia 14.


