Demógrafos debatem transferência seletiva feita em países pobres
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segunda-feira, 20 de agosto de 2001
Roldão Arruda<BR>Enviado especial<BR>De Salvador, BA 
Cerca de 1.300 especialistas em demografia, provenientes dos cinco continentes, estão reunidos em Salvador, na Conferência Geral sobre População. O evento, feito a cada quatro anos, tem sido comparado às conferências organizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Até sexta-feira eles deverão fazer um balanço dos principais estudos científicos produzidos desde 1997, quando se reuniram em Pequim, na China. A relação de assuntos impressiona, variando desde software em demografia até o impacto da epidemia de Aids no continente africano.
Mas nesse conjunto poucos temas chamam tanto a atenção dos estudiosos quanto a chamada transfusão de população. Esse é o nome que se dá ao fenômeno, cada vez mais acentuado, de transferência de pessoas na idade ativa dos países mais pobres para os ricos, mergulhados num acelerado processo de envelhecimento populacional. Não se trata exatamento de um fenômeno novo.
A novidade é que a demanda estaria se tornando mais seletiva. Se antes os ricos precisavam principalmente de mão-de-obra barata, para os serviços menos valorizados, como varrer ruas e lavar pratos, agora a preferência recairia sobre pessoas com melhor preparo intelectual e capacitação técnica. Isso significa um risco para países como o Brasil.
Boa parte dos investimentos que eles estão fazendo em recursos humanos, para quebrar o círculo vicioso do subdesenvolvimento, poderia no fim das contas beneficiar os ricos. Um exemplo do que isso significa aparece num número citado na reunião, no Centro de Convenções de Salvador: 60% dos brasileiros que migraram legalmente para Portugal na última década são profissionais liberais e autônomos.
Na opinião de José Alberto Magno de Carvalho, mineiro que preside a União Internacional para o Estudo Científico da População, instituição promotora da conferência, esse deverá ser um dos temas mais polêmicos da demografia internacional nas próximas décadas. No discurso de abertura do encontro, na noite de domingo, ele se deteve de forma demorada no assunto. Citou um recente estudo da Divisão de População da ONU, indicando que entre 1995 e 2050 a Europa teria que importar 2,9 milhões de pessoas por ano, para manter constante sua população em idade ativa (entre 15 e 64 anos). No Japão, a demanda seria de 600 mil por ano.
Caso o objetivo dos países ricos fosse manter intacta a taxa de dependência de idosos, que é a razão entre população com mais de 65 anos e aquela de 15 a 64 anos, a transferência seria muito maior: 25 milhões teriam que ir anualmente para a Europa e 10 milhões para o Japão.
Segundo Carvalho, esses números projetados pela ONU certamente serão atenuados, com a adaptação tecnológica e cultural dos países ricos à realidade do envelhecimento. Mas mesmo assim a demanda será alta e seletiva. ''É quase certo que a migração internacional, vista na maioria das vezes como um benefício para os países de origem, por aliviar a pressão social causada pela pobreza e garantir o recebimento de divisas, por meio da remessa de imigrantes a seus familiares, passe a significar perdas para esses países'', disse Carvalho.
''Correm o risco de perder os jovens mais bem preparados para outros países, que lhes oferecerão melhores condições.'' Na opinião de Carvalho, que é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), é imprescindível que o Brasil invista maciçamente no preparo de seus jovens. Mas, se quiser que os investimentos não sejam desperdiçados, também precisa definir políticas e planos para garantir a absorção desses jovens no processo produtivo.
Há pesquisadores que discordam desse ponto de vista. Acreditam que alguns países estão exportando de fato parte de sua mão-de-obra mais qualificada, incluindo médicos e engenheiros. Mas que no Brasil esse fenômeno ainda não é visível.


