Rio, 24 (AE) - Por descrédito ou desconhecimento, a democracia está em baixa entre os jovens cariocas das classes populares (C, D e E), média e alta (A e B). Pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgada hoje, mostra que 21% dos adolescentes das classes populares, entre 15 e 20 anos, acreditam que a ditadura é o melhor regime de governo. Somados aos indiferentes (6,9%) e aos que não souberam responder (36,6%)
esse número chega a 64,5% contra 35,5% dos que defendem, com convicção, a democracia. Entre os jovens mais abastados, o índice - indiferentes, não sabem e os pró-regime de exceção - é de 47% contra 53%.
"Esse resultado é muito preocupante, porque mostra que há na cidade do Rio um caldo de cultura favorável a que qualquer tentativa ou ação anti-democrática venha a ter um forte apoio popular", afirma Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador da pesquisa "Fala Galera - Juventude, Violência e Cidadania na Cidade do Rio de Janeiro", que entrevistou, entre setembro e dezembro do ano passado, 1.686 pessoas - 1.220 jovens, 443 educadores, 18 mães e 5 policiais - sobre os mais variados temas
como educação, lazer, drogas e preconceitos.
Segundo Waiselfisz, os dados do trabalho mostram que a democracia não é, em si, sinônimo de satisfação das expectativas de vida dos jovens, principalmente os da periferia. "Saciar a fome é mais prioritário do que filosofar sobre formas de governo para esses adolescentes", diz. A pesquisa, que contou com o apoio da fundações Ford e Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Ayrton Senna, faz parte de um projeto mais amplo da Unesco, que pretende estudar o comportamento dos jovens brasileiros.
Consulta parecida já foi realizada com 660 jovens de Brasília no ano passado. Nesse momento, estão sendo feitas entrevistas com adolescentes de Fortaleza e Curitiba.
O xeque à democracia brasileira - que ainda supera o passado recente de 21 anos de regime militar -, levantado pela pesquisa, se confirma com o grau de confiabilidade que os jovens têm em relação às intituições sociais. Os principais pilares da moderna democracia representativa - compartilhados entre Legislativo, Executivo, Judiciário e partidos políticos - são os que mais geram desconfiança entre os entrevistados.
Para os adolescentes cariocas, tanto das classes populares quanto das médias e altas, a família (9%) é a que mais merece confiança, seguido da igreja (entre 7,2% e 8,2%), dos meios de comunicação (7,3%), da escola (entre 6,9% e 7,3%) e das entidades representativas (6%). O Poder Judiciário e o Congresso Nacional inspiram confiança apenas de 4% dos jovens, acima do governo (o Poder Executivo) e da polícia, entre 3% e 3,5%. Os partidos políticos são os que mais levantam suspeitas: apenas 2 5% dos entrevistados acreditam neles.
Para o cientista político Renato Boschi, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), os jovens não estão, necessariamente, mais reacionários. "Não acho que exista um embasamento ideológico nessas opiniões", afirma. "A pesquisa reflete o descrédito desses garotos com o modelo político que aos seus olhos só gera insegurança, violência, corrupção e desemprego, sem produzir oportunidades para eles."

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