Demissão de sociólogo reabre crise entre PT e Garotinho
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domingo, 19 de março de 2000
Por Wilson Tosta 
Rio, 20 (AE) - A demissão do sociólogo Luiz Eduardo Soares do cargo de coordenador de Segurança Pública do Estado do Rio reabriu a crise entre o PT e o governo fluminense. Integrantes das principais tendências do partido marcaram para quinta-feira (23) uma reunião da Executiva Regional com Soares, na qual pretendem "reavaliar" a participação da legenda na administração. Hoje, num almoço da cúpula petista com Garotinho, no Palácio Guanabara, sede do governo, os petistas reivindicaram a volta de Soares, identificado com a defesa dos direitos humanos, e criticaram a administração.
Mesmo petistas governistas, da Articulação, como o secretário do Planejamento, Jorge Bittar, assumiram um discurso de crítica ao governador Anthony Garotinho (PDT).
"Continuar no governo não será uma decisão dos secretários", afirmou Bittar, após almoço da cúpula petista com Garotinho, no Palácio Guanabara, sede do governo. "Será a reunião de quinta que vai decidir se o desconforto significa ruptura com o governo; sentimos desconforto com o estilo solitário do governador de tomar decisões." Bittar reivindicou um relacionamento "mais direto" do partido com Garotinho, o que, atualmente, não ocorre. "O PT quer estar mais presente nas decisões de políticas do governador", afirmou.
"Não estamos aqui só para pleitear cargos." Bittar afirmou ser "evidente que as relações com o governo estão abaladas". Ele também condenou a divulgação, pelo pedetista, da gravação pública da conversa em que demitiu Soares, que afirmou não considerar correto.
"Jamais adotaríamos esse tipo de prática", disse o secretário, que expôs as mesmas críticas ao governador, durante o almoço.
O discurso de Bittar tem explicação: além de problemas antigos de relacionamento do governador com o PT, o partido realizará, no domingo (26), uma prévia para escolher o candidato a prefeito. O ex-deputado Vladimir Palmeira, do grupo Refazendo, passou a usar a saída de Soares para atacar a vice-governadora Benedita da Silva, da Articulação, que foi posta na defensiva.
O presidente do PT do Rio, Carlos Santana, da tendência Opção Popular, que rompeu com o governo em 1999, disse o episódio tem um lado positivo. "Cem por cento do partido defendem o Luiz Eduardo (Soares)", disse. Ele revelou que o governador afirmou não haver condições para o sociólogo voltar ao governo, pois a demissão dele não foi por incompetência, mas incompatibilidade com o secretário de Segurança Pública, Josias Quintal.
"É bom deixar claro que Luiz Eduardo não é filiado ao PT, não é quadro nosso, mas concordávamos com a política de direitos humanos", disse ele. Também Santana criticou as gravações. "Deixamos claro que, para nós, essa atitude das fitas não é uma coisa boa." Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Chico Alencar (PT), Garotinho unificou o PT. "Achamos que a política de direitos humanos está ameaçadíssima", afirmou o parlamentar. Chico Alencar contou que, amanhã (21), a bancada da legenda no Legislativo estadual vai reunir-se para unificar uma posição sobre o caso e que, na reunião de quinta-feira, ele proporá na executiva o rompimento com o governo.
"Vou mostrar que é politicamente insustentável participar de um governo em que nossos secretários podem ser alvo de espionagem", disse.
Garotinho confirmou que os petistas se disseram incomodados pela demissão de Soares e explicou que a decisão ocorreu por causa de atritos hierárquicos. "Mas o PT não exigiu a volta dele", afirmou.


