Paris, 29 (AE) - A demissão do presidente do Conselho Constitucional, o ex-ministro do Exterior Roland Dumas, quinta personalidade da república francesa, é tida como iminente. Ela está sendo esperada a qualquer momento, após a decisão da Justiça de indiciá-lo por "cumplicidade no abuso de bens sociais".
Sua posição ficou insustentável diante do rumo tomado pelo processo que o envolve. Dumas, quando chanceler do presidente François Mitterrand, teria influenciado o grupo Elf (na época uma estatal) a contratar sua antiga amante, Christine Deviers Joncour, para intermediar negócios pouco transparentes, entre eles a venda de fragatas francesas a Taiwan, o que lhe garantiu polpudas comissões depositadas em contas na Suíça.
Com o dinheiro, a ex-amante adquiriu por US$ 2,8 milhões um apartamento na Rue de Lille, em St. Germain de Prés, usado para reuniões privadas do então ministro. Vários depósitos em dinheiro foram feitos em contas pessoais de Dumas por sua ex-amante.
Dessa forma, não havia outra saída para Dumas senão oficializar sua demissão, o que será feito a qualquer momento, apesar de ele já se encontrar licenciado da presidência há quase um ano, quando o escândalo ganhou as páginas dos jornais. O processo de sua demissão acelerou-se a partir da decisão das juízas de instrução Eva Joly e Laurence Vichynievsky de submeter ele e sua ex-amante a julgamento pelo Tribunal Correcional de Paris.
Na presidência dessa alta instância ele deverá ser substituído pelo conselheiro Yves Guéna, que já vinha respondendo interinamente pelo cargo, devendo o presidente Jacques Chirac designar Maurice Ulrich, senador gaullista de Paris, para substituí-lo como conselheiro. Depois da decisão da Justiça de julgá-lo, os outros membros do conselho chegaram à conclusão de que não era mais possível que o presidente da instituição permanecesse no cargo, mesmo licenciado.
Guéna, em nome dos demais, reuniu-se no fim de semana com Dumas, convencendo-o a pedir demissão para evitar um processo de impedimento.
Dessa forma, Dumas, após ter concordado verbalmente, deveria enviar uma carta ao conselho oficializando sua decisão. Essa manifestação é juridicamente suficiente, pois qualquer membro do conselho pode demitir-se por escrito. Antes de oficializar sua demissão, Dumas pretendia ter um contato com o chefe de Estado, pois é ele que nomeia o presidente do Conselho Constitucional. Dessa forma, aguardava-se apenas a volta de Chirac da Holanda, onde se encontrava em visita oficial, para que o processo de demissão se completasse.
O presidente tem um mês para substituí-lo, mas sua decisão parece já tomada, confirmando Guéna na presidência e o senador Maurice Ulrich, seu ex-chefe do gabinete, como conselheiro da Corte Constitucional. Quanto a Dumas, em outros tempos um dos mais brilhantes advogados parisienses, sua carreira política parece encerrada, devendo agora dedicar seu tempo a preparar sua defesa no processo previsto para o último trimestre do ano. A seu lado, no banco dos réus, estará sua ex-amante, que, sentindo-se por ele abandonada, acabou contando tudo à Justiça.