Delegado surpreende e faz andar inquérito sobre o grampo
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sábado, 25 de setembro de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 26 (AE) - Discreto, jeito caipira, dono de uma ficha limpa mas sem grandes brilhos, o delegado federal Rubens Grandini, encarregado de apurar quem fez o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), parecia o tipo ideal para encarnar o papel de condutor de um inquérito fadado a virar pizza. Mas na reta final do inquérito ficou claro que, se a massa crescer, não será por culpa do delegado e de seu exército de Brancaleone, formado por um escrivão e um agente.
Grandini vai apresentar ao Ministério Público Federal pelo menos três indiciados: pela autoria da escuta, o funcionário da Agência Brasileira de Investigação (Abin) Temílson de Resende, o Telmo, e o detetive particular Adilson Alcântara de Matos; por falso testemunho, o coordenador da Abin no Rio, João Guilherme Maia - e é certo o indiciamento do coordenador de operações da Agência, Gerci Firmino da Silva, também por falso testemunho. Silva é o terceiro homem na hierarquia da Abin.
As revelações sobre o caso feitas em Juízo pelo ex-policial federal Célio Arêas da Rocha podem levar a novos indiciamentos. A linha de investigação sobre a possível conivência de funcionários do BNDES - que, segundo Rocha, teriam facilitado o acesso ao prédio - será retomada.
Ainda esta semana deverão ser ouvidos o major reformado do Exército Divany Carvalho Barros e o técnico em eletrônica Nelsino Drozczak da Silva, acusados pelo ex-policial de serem "sócios" de Telmo no esquema de escutas telefônicas clandestinas no Rio. Com prisão preventiva decretada, Telmo pode se apresentar hoje à Justiça.
Mandante - Não é provável que o delegado aponte o mandante da escuta do BNDES mas, diante dos problemas, não é coisa pouca ter chegado a nomes da Abin. Afinal, não bastassem as inúmeras questões políticas envolvendo a escuta que derrubou o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, havia a dificuldade técnica de levantar a autoria de um crime que tem por principal característica não deixar vestígios.
Grandini, que é corregedor da Superintendência da Polícia Federal no Mato Grosso do Sul - lugar de pouca visibilidade e projeção dentro da polícia - caiu de pára-quedas na PF do Rio, conhecida pelo número de policiais, delegados e até superintendentes que são réus em processos criminais.
Um deles, o ex-superintendente Edson de Oliveira, é acusado de estar na lista de propinas do jogo do bicho, ao lado de Telmo, apontado no processo como seu amigo e apanhador do dinheiro do suborno. Constam dos autos depoimentos dizendo que o agente teria uma sala dentro da PF, quando Oliveira era o superintendente.
"Ele foi grampeado e vigiado dentro da Polícia Federal", garante uma pessoa que, apesar de não estar ligada às investigações, teve acesso ao delegado. Em seu depoimento, Rocha disse que Telmo sabia antecipadamente de tudo o que se passava no inquérito.
Segundo o advogado Nélio Andrade, que representa Rocha, o almoço realizado num restaurante no Rio no último 25 de agosto - no qual o ex-policial tentou gravar uma conversa com o agente que o incriminasse -, foi marcado por Telmo para comemorar a informação de que o delegado não indiciaria ninguém, por falta de provas.
Essa "informação" Grandini propositadamente deixou escapar. "Nada acontecia na PF sem que o Telmo soubesse", afirma Andrade.
Orelhão - Grandini passou a tomar precauções extremas, como a de só falar pelo orelhão e a de carregar o inquérito com ele para onde quer que fosse. O delegado levou do Mato Grosso do Sul para o Rio duas pessoas de sua confiança, um escrivão e um delegado. Foi com eles, e só com eles, que trabalhou o tempo inteiro.
A PF do Rio foi abertamente deixada de lado. Mesmo os mandados de busca e apreensão nas casas de Telmo e de Silva foram cumpridos por equipes de fora do Rio.
Sem sala, sem pessoal, sem equipamentos - tudo indicava que o inquérito não era para andar. Segundo fontes ligadas à investigação, para a PF, em meio a uma intensa briga política com a Abin pelo controle da Secretaria Nacional Anti-Drogas, era sopa no mel um inquérito que caminhava para incriminar agentes do serviço de inteligência - mas como instrumento de pressão, não para colocar ninguém atrás das grades.
Quando, ao contrário do que havia dito Telmo, o delegado chamou Rocha para indiciá-lo, o ex-policial, condenado a nove anos de prisão por extorsão, assustou-se e aceitou a proposta de abrir o que sabia, em troca dos benefícios da Lei de Proteção à Testemunha.
Com gravações e extratos telefônicos, material de grampo apreendido na casa do agente e uma testemunha, Grandini pôs a mão num dos mais ativos arapongas do Rio. O tamanho da pizza, agora, será determinado pela Justiça.


