A prisão de um homem acusado de um crime cometido há mais de 20 anos seria mais um fato corriqueiro na vida policial se não houvesse um detalhe: o delegado encarregado do trabalho ser irmão da vítima. O comerciante Luiz Baptista, 55 anos, morador em Arapongas, foi preso anteontem à tarde pelo delegado de Faxinal (76 km ao sul de Apucarana), Germínio Marques Bonfim Filho - dando cumprimento a mandado de prisão expedido pela Justiça de Manaus (AM). Ele é acusado de ter matado a secretária Dalva Augusta Bonfim, na época com 18 anos.
Em novembro de 1974, Dalva foi morta com vários tiros de escopeta na periferia de Manaus. Com o barulho dos tiros, várias pessoas foram ao local ver o que estava acontecendo e presenciaram uma pessoa passando com um carro por cima do corpo, fugindo em seguida. A placa, descrita pelas testemunhas, era do carro do comerciante, preso alguns dias depois. Como não houve flagrante, ele ficou detido uma semana.
Em 1978, a Promotoria de Justiça amazonense ofereceu denúncia contra Baptista, mas somente em 1983 é que saiu a sentença de denúncia. Desde então, o comerciante não foi mais visto naquele Estado. Pela lei, a prescrição do crime - 20 anos - passou a contar após a sentença.
Segundo o delegado Bonfim, em 1974 Luiz Baptista trabalhava numa empresa de agrotóxicos em Arapongas e abriu uma sociedade na revenda de produtos agropecuários em Cornélio Procópio. Dalva era secretária nesta empresa. ‘‘O Luiz deu um golpe, obrigando a Dalva a retirar todo o dinheiro do banco e a coagiu a fugir com ele. Desde que soube do que havia acontecido, vinha buscando o paradeiro dela’’, comentou.
Neste tempo, teve informações de que os dois teriam passado por vários países e estados brasileiros. Mas um amigo, que tem relações com o FBI (polícia federal norte-americana) e o setor de imigração dos EUA, disse que eles estariam na América do Sul, mais precisamente no Brasil. Em 1982 ele ingressou no quadro de carreira da Polícia Civil e há cinco anos exerce a função de delegado.
No ano passado, foi transferido para a delegacia de Faxinal. ‘‘Em agosto recebi o primeiro contato da Justiça do Amazonas a respeito de Luiz Baptista. Mas só soube da morte de Dalva em outubro, quando cópia dos autos me foi entregue’’. A família Bonfim ficou abalada com a notícia. Mesmo sabendo do paradeiro de Luiz Baptista, somente anteontem recebeu o mandado de prisão da Justiça de Manaus. O comerciante foi preso numa barbearia de Arapongas. Além deste homicídio, ele responde por outros dois cometidos em Cianorte e Mandaguari. ‘‘Houve uma tremenda coincidência em eu ser delegado na região onde o réu estava morando. O fato de ser irmão da vítima não altera a verdade dos fatos. Ele praticou um crime bárbaro e não pode ficar impune. O meu empenho foi igual a tantos outros casos que resolvi’’, salientou. A transferência de Baptista para Manaus depende ainda de um acordo entre a Justiça amazonense com o fórum local. O julgamento deve acontecer em maio.

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