Brasília, 18 (AE) - A demissão do diretor-geral da Polícia Federal João Batista Campelo teve um significado de presente de aniversário ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que hoje completa 68 anos. Campelo é acusado de atos de tortura nos anos 70 e o governo vinha sendo pressionado a demiti-lo. No pedido de exoneração, prontamente aceito pelo presidente, Campelo alega que tomou tal atitude por "compreender a grave situação política vivida no País, neste momento". O nome do novo diretor da PF deve ser anunciado na segunda-feira (21), depois de uma reunião entre Fernando Henrique e Renan Calheiros.
Campelo, que foi nomeado no dia 8 de junho e empossado uma semana depois, dia 15, deixou o cargo por causa de acusações de que teria participado de sessões de tortura, em 1970, contra o ex-padre José Antônio Monteiro. Assessores do presidente asseguram que não há nenhuma acusação concreta contra o delegado Campelo e por isso Fernando Henrique não desejava demiti-lo. Mas foi pressionado por um manifesto do PSDB, ontem (17), exigindo a sua saída, "com ou sem provas". O Palácio do Planalto não confirma mas os tucanos consultaram o presidente antes de anunciar a nota contra Campelo.
A saída de Campelo não encerra a crise entre a Polícia Federal e a Casa Militar, deflagrada por causa do controle do combate ao narcotráfico. O nome a ser escolhido pelo presidente poderá gerar uma nova crise política. O general Alberto Cardoso, ministro-chefe da Casa Militar, sugere que o sucessor de Campelo seja o delegado da PF Zulmar Pimentel, que é crente, conceituado na polícia, mas que integra a ala radical da polícia. Mas, em compensação, assegura que não há nada que desabone a sua conduta.
PRESSOES - Campelo, que havia assegurado que não deixaria o cargo, durante seu depoimento na Comissão de Direitos Humanos na Câmara, não aguentou as pressões e decidiu sair. Na tarde de quinta-feira, ele passou mal nos cinco primeiros minutos da solenidade de abertura da semana nacional antidrogas, e foi embora do Planalto. Antes, porém, havia conversado reservadamente com o general Cardoso.
Antes mesmo de ser empossado, o delegado Campelo começou a ser bombardeado pelo ex-diretor da Polícia Federal, Vicente Chelotti, que deixou o cargo em 5 de março, depois de divulgações de informações de que ele possuiria gravações que comprometiam o presidente Fernando Henrique e que , por isso, possuía cola super bonder na cadeira.
Desde então, ficou interinamente na função o delegado Wantuir Jacini, ligado a Chelotti e que tinha o apoio do ministro Renan Calheiros. O senador Jáder Barbalho, presidente do PMDB, acabou endossando o nome de Jacine. O PSDB entrou na briga, defendendo a nomeação de Marcelo Itajiba, e o general Cardoso, por sua vez, preferia Zulmar Pimentel. Para evitar confrontos, Fernando Henrique nomeou Campelo, que ficou apenas dez dias no cargo, sob forte tiroteio.
No Planalto, assessores ligados ao presidente não acreditam que ele vá escolher Zulmar Pimentel porque uma nova crise surgiria já que ele não tem o apoio da ala da PF liderada por Chelotti.
A investigação que está sendo realizada pela Abin-Agência de Inteligência sobre as denúncias contra Campelo ainda não foi concluída.

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