Curitiba, 29 (AE) - O delegado Adauto Abreu de Oliveira, 49 anos, é considerado um arquivo vivo pela CPI do Narcotráfico, que se instalou hoje no Paraná. Chefe da Força Especial de Repressão Anti-Tóxico (Fera), com sede em Curitiba, Oliveira comprou briga com a própria categoria ao fazer revelações à CPI que podem comprometer policiais civis do Estado envolvidos no crime organizado. As informações são mantidas em sigilo.
O delegado recebeu hoje três interpelações judiciais para apresentar a lista dos policiais que teriam ligações com o narcotráfico. A Associação dos Delegados da Polícia Civil do Paraná (Adepol), a União da Polícia Civil e o Sindicato das Classes Policiais Civis (Sinclapol) - entidades autoras da interpelação - deverão aguardar os resultados que a CPI irá apresentar nos próximos dias , recomendou o delegado. "As informações serão tornadas públicas pela CPI", acrescenta Oliveira.
As pressões que o delegado vem sofrendo foram causadas após a distorção de uma informação que ele teria dado no depoimento prestado à comissão, em Brasília, há duas semanas. Foi atribuída a Oliveira uma declaração de que 200 policiais civis estariam trabalhando com o narcotráfico no Paraná. O delegado negou ter feito a afirmação aos deputados. "O que eu falei, e isto está transcrito nas atas da reunião da CPI, é de que existem 200 processos de policiais que respondem a denúncias por diversos casos na corregedoria da Polícia Civil", explicou.
Polêmica - Não é a primeira vez que o delegado desagrada a corporação com suas revelações. Em abril de 1998, ele confirmou publicamente que o tráfico de drogas em Curitiba era chefiado por policiais civis. Ao invés de investigar as denúncias, a Secretaria de Segurança Pública destituiu Oliveira do comando da Delegacia Anti-Tóxicos de Curitiba. No ano passado
nova polêmica. Oliveira deixou a chefia da Escola de Polícia em solidariedade ao então corregdor da Polícia Civil, Aníbal Bassan
que questionava métodos de abordagem de suspeitos detidos pela Polícia Militar.
Voltou a um cargo de elite da polícia, em novembro do ano passado, depois que a CPI confirmava a intenção de investigar a movimentação do narcotráfico no Paraná. Com 21 anos de carreira, o delegado Adauto de Oliveira garantiu que as adversidades que enfrenta não o farão recuar nas investigações. Por causa desta postura, ele foi obrigado a tomar precauções.
Dois dias depois de ter prestado depoimento à CPI, a chácara onde Oliveira reside na Região Metropolitana de Curitiba foi vistoriada por quatro homens armados. "Fiquei surpreso com a ousadia dos desconhecidos",diz o delegado.. Diariamente, Oliveira e seus homens recebem ligações anônimas na sede da Fera. As intimidações visam o delegado e seus filhos. "Não tenho medo de morrer. Sou evangélico, acredito em Deus. Estas ameaças só mostram o desespero desta gente que se achava intocável, mas que com certeza será punida pela lei", diz Oliveira.
Para o delegado, a CPI do Narcotráfico é o único instrumento eficaz que poderá trazer à tona o envolvimento de "figurões" da sociedade paranaense com o sindicato do crime. "Trabalhando com a CPI fica mais fácil, pois ela tem poder de quebrar os sigilos bancário e fiscal mais rapidamente do que nós e avançar nas investigações". O desafio de Oliveira é estruturar a Fera para combater o narcortáfico no Estado. Ele aguarda o destacamento de mais homens para trabalhar nas investigações. "Atualmente conto com 20 policiais, são necessários pelo menos outros 15 para promover diligências no interior do Estado".