Teresina, 20 (AE) - O delegado da Polícia Civil José Wilson Torres de Souza, considerado como um dos homens de confiança do coronel José Viriato Correia Lima, acusado de ser o chefe do crime organizado no Piauí, foi preso na manhã de hoje nas dependências da Secretaria da Segurança Pública do Estado pelos policiais da força-tarefa montada pelos delegados civis e federais.
Souza foi presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil do Piauí, deixou o posto há poucos dias e está com a prisão temporária decretada pela Justiça por 30 dias. É acusado de fazer parte do esquema de Lima na cobrança de vendas de notas fiscais frias para os prefeitos de cidades do interior do Estado e também fazer parte da quadrilha do oficial da reserva da Polícia Militar.
"As fitas gravadas em nosso poder revelam que o dr. Torres de Souza ameaçava os prefeitos que não queriam comprar as notas fiscais e também o ligam a um assalto praticado contra um carro da companhia telefônica para o roubo de cartões magnéticos de telefones", informou o delegado Robert Rios Magalhães, superintendente da Polícia Federal (PF) do Piauí.
Souza está recolhido numa cela comum do Presídio de Teresina. Os advogados dele queriam que ele fosse mandado para uma sala da Secretaria da Segurança Pública, mas o Ministério Público (MP) não concordou. Souza não tem nível universitário e por isso não tem direito a prisão especial.
No Piauí, poucos são os delegados bacharéis em Direito. O secretário da Segurança Pública, Carlos Lobo, prepara um projeto para que os delegados de polícia sejam somente bacharéis em Direito. Além de Souza a polícia prendeu hoje outro participante da quadrilha de Lima: o empresário Sigefredo Audísio Pinheiro, dono de uma empresa de venda de armas. Nas gravações, ele aparece como fornecedor de armas de grosso calibre para policiais civis e militares, e a polícia suspeita que ele seria um "testa de ferro" de Lima no contrabando de armas como metralhadoras, fuzis AR-15 e carabinas calibre 12.
Com as prisões hoje de Souza e Pinheiro, subiu para seis o número de detidos ligados diretamente ao coronel.
Estão na cadeia desde a semana passada, os soldados Raimundo Xavier, o irmão dele Tomé Xavier da Silva, o soldado da reserva da PM Francisco Moreira do Nascimento e o próprio coronel. Estão sendo procurados o irmão de Lima, empresário do ramo de dedetização, Marcos Correia Lima, e o contador das empresas do coronel, Francisco Domingos de Souza, mais conhecido como "Domingão".
Hoje pela manhã, o jornalista Efrem Ribeiro reconheceu, nas dependências da Polícia Federal (PF), Xavier como sendo o homem que o espancou, tentou matá-lo a golpes de facão e ameaçou atirar nas pernas dele. Um dos golpes provocou um corte no rosto do jornalista.
"Foi o Raimundo quem me tirou do restaurante onde eu jantava e deu socos e pontapés, cortou meu rosto com facão, dizia que eu ia aprender a lição e só não atirou nas minhas pernas porque os garçons do restaurante me defenderam com cadeiras e uma mesa", declarou o jornalista, depois de afirmar no reconhecimento que Xavier, de bigode e rosto redondo, fora o agressor dele.
No inquérito sobre o espancamento de Ribeiro, Lima é acusado de ter sido o mandante porque se irritara com as notícias publicadas na coluna diária do jornalista no jornal "Meio Norte", de Teresina.
"A escuta gravada está bem clara e dá para ouvir com nitidez o coronel mandar Domingão dar uma surra no jornalista e depois atirar nos joelhos", declarou o superintendente da PF.
Xavier, o soldado da PM reconhecido, é de confiança de Lima e, com o irmão Silva é suspeito de assassinato de muitas pessoas, a mando do coronel, segundo os policiais civis que também investigam o crime organizado no Estado.
Hoje pela manhã, reuniram-se na Assembléia Legislativa deputados, representantes de entidades de direitos humanos, o secretário da Segurança, o superintendente da PF e alguns delegados que trabalham na investigação para explicar o que tem sido feito e o que deverá ainda ser ainda feito principalmente para investigar a lavagem de dinheiro e emissão de notas frias por Lima. Discutiram também a melhor maneira para tentar acabar com o crime organizado no Estado. Uma cópia do dossiê montado pela PF está em poder de uma comissão de deputados. Na cópia, constam detalhes da família do coronel, envolvida em crimes. Marcos, irmão do coronel, é apontado como dono de duas empresas de dedetização. Elas teriam sido montadas exclusivamente para emissão de notas fiscais frias. José Viriat Correia Lima, segundo o mesmo dossiê, tem um sobrinho despachante acusado de legalizar no Departamento de Trânsito (Detran) do Piauí os carros obtidos de maneira licita e ilícita pelo grupo. Augusto, um outro irmão do coronel, é apontado como proprietário de empresas em Picos de Floriano (PI) e Iguatu (CE) somente para emissão de notas frias.
O superintendente da PF declarou que, com as investigações, foi apurado até o momento, que o esquema do coronel funcionava da seguinte maneira: "Domingão", o contador da quadrilha, também fazia parte do esquema de cobranças. Eram deles as primeiras ameaças para quem não pagava. Há um outro homem que a PF tenta identificar que seria o responsável por limpar o nome de José Viriato Correia Lima nos cartórios do Piauí, Ceará e Pernambuco. Viriato Correia Lima, numa pasta guardada num armário na cela onde está recolhido, tem várias certidões da Justiça comum e federal, atestando ser ele de boa conduta, sem nenhum antecedente criminal. No grupo, segundo ainda o superintendente da PF, existe a suspeita de agiotas que lavam o dinheiro que a quadrilha ganhava com empréstimos, recebendo altos juros no Ceará, Pernambuco e Alagoas.
O dossiê também aborda uma rede de pistolagem para matar quem se negava a pagar o dinheiro obtido com a compra de notas fiscais.
O promotor de Justiça Afonso Gil Castelo Branco, que atua no inquérito da agressão ao jornalista, pediu à PF que auxilie também nas apurações da Polícia Civil. Ele teme que, com o prazo para o conclusão do inquérito terminando, em poucos dias
a Justiça, por força de lei, ponha Viriato Correia Lima e a quadrilha dele na rua. Segundo o promotor, assim que o inquérito concluído chegar às mãos dele, vai oferecer a denúncia por tentativa de homicídio, ameaças e formação de quadrilha.
O Sindicato dos Policias Civis do Piauí encaminhou hoje à Comissão de Direito Humanos da Assembléia Legislativa ofício pedindo o afastamento, das investigações sobre o crime organizado, do delegado da Polícia Civil Francisco Costa, mais conhecido como "Bareta", responsável pela coordenação das investigações da quadrilha do coronel. O sindicato diz no ofício que "Bareta" foi condenado em Picos por abuso de autoridade, responde em Luzilândia (PI) a processo por tortura, tendo sido denunciado pelo MP, e também teve o nome citado várias vezes no dossiê do crime organizado feito pela PF, com base na escuta telefônica.
Diz ainda o sindicato no ofício que "Bareta" era diretor-jurídico da Associação dos Delegados da Polícia Civil, quando o presidente era Souza, preso hoje.

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