Delegado da PF é detido por desacato e injúria racial em Londrina
Homem foi ouvido na Central de Flagrantes e liberado; boletins de ocorrência relatam xingamentos a policiais e funcionários de shopping
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 2026
Homem foi ouvido na Central de Flagrantes e liberado; boletins de ocorrência relatam xingamentos a policiais e funcionários de shopping

Um delegado da PF (Polícia Federal) de Londrina foi detido e levado à Central de Flagrantes por ter desacatado policiais militares nesta segunda-feira (13), logo após cometer suposta injúria racial contra funcionários de uma locadora de veículos da zona sul, conforme a PM (Polícia Militar). Após devolver o carro no estabelecimento, teria xingado os trabalhadores de “pretos babacas” junto de sua mãe, entre outras ofensas. O homem foi ouvido e liberado na noite do mesmo dia, sendo que um inquérito policial foi instaurado para apurar o ocorrido. Natural do Rio de Janeiro, ele atua no município há quase 18 anos e já foi alvo de denúncia por violência doméstica e estupro de vulnerável, segundo o BO (Boletim de Ocorrência).
Ainda de acordo com o documento, o delegado teria se aproximado a pé de policiais que realizam uma blitz em frente a um shopping na zona sul de Londrina para indagar o motivo do bloqueio da via naquele horário. “Visando desacatar funcionário público em decorrência da sua função, em alta voz e extremamente exaltado”, o homem teria questionado um sargento e uma cabo “por que não vão prender ladrão? Ladrão você não vai atrás, ‘né’? Fica incomodando o cidadão de bem, travando todo o trânsito e gerando transtorno”.
Quando o sargento pediu que o homem se identificasse, afirmou que era delegado da PF em férias, não portando documento de identificação ou arma. O BO relata que o policial foi xingado de “ridículo, troglodita e despreparado, incapaz de identificar um delegado da Polícia Federal”, supostamente apontando o dedo de forma “ameaçadora, hostil e agressiva”. O delegado de plantão da PF e um agente foram acionados para irem até o local e confirmar a identidade e profissão do homem, também sendo verificada a existência de boletins de ocorrência prévios por violência doméstica e estupro de vulnerável.
Ainda no espaço, começou a ser lavrado um TCIP (Termo Circunstanciado de Infração Penal), registro simplificado usado pelas autoridades policiais para apurar crimes de menor potencial ofensivo. O alvo teria exigido dar o seu ponto de vista sobre o ocorrido, posteriormente conduzido à Central de Flagrantes sem algemas, acompanhado dos colegas de trabalho e da mãe. Ao ser ouvido, disse que o sargento lhe “sonegou a possibilidade” de redigir a sua versão dos fatos após duas tentativas anteriores, reforçando sua pretensão de denunciá-lo por abuso de autoridade.
Ainda na delegacia, o homem garantiu que não xingou os policiais militares ou questionou a qualidade do trabalho deles em nenhum momento, somente indagando o motivo da realização da blitz em horário de pico “como cidadão”. Disse que o sargento perguntou, “vexatoriamente”, quatro vezes quem o delegado era, o que teria sido gravado em vídeo pela sua mãe. “O tempo inteiro ficou instigando e me humilhando; em vez de ele checar primeiro se eu era delegado e me tratar como um possível colega”, declarou. Terminou a sua fala pontuando que “não houve desacato nenhum, estou sendo injustiçado até agora, não tenho mania de perseguição”.
Ofensas raciais
O homem não chegou a ser preso, sendo liberado após o depoimento. Porém, assim que saiu da delegacia, foi reconhecido por três vítimas e uma testemunha do crime de injúria racial que ele teria cometido logo antes da situação com os policiais, sendo conduzido novamente ao prédio. Consta em um segundo B.O que, mais cedo no mesmo dia, ele devolveu um automóvel que havia alugado em uma loja do shopping e, “por algum descontentamento quanto ao carro”, teria ofendido e ameaçado funcionários.
As falas teriam variado entre “você vai se ver comigo, é por isso que falam que preto só faz merda", "você tá olhando pra mim por quê? Quer apanhar? Quer sair no soco? e "é por isso que é uma b*sta de um atendente, nunca vai ser ninguém na vida, seu preto". O delegado teria gritado para dois outros funcionários, também negros, que “preto só faz ‘cagada’”. Conforme o BO, a mãe do homem teria repetido as mesmas injúrias raciais, acrescentando que seu filho atua na PF e que os funcionários estariam “ferrados”.
Ainda segundo o documento, todos os trabalhadores sentiram “extrema humilhação”, sendo que o primeiro homem ofendido teria chorado ao relatar o episódio aos policiais. A empresa em que as vítimas atuam, Movida, informou que “vem prestando todo o suporte necessário aos colaboradores, incluindo assistência jurídica e apoio psicológico e permanece à disposição das autoridades para apuração dos fatos, nos termos da legislação aplicável”.
Defesa
A defesa do delegado, representada por Gabriel Bertin de Almeida, informou que “ainda está acessando os elementos constantes do inquérito policial, razão pela qual não fará comentários detalhados sobre os fatos neste momento”, acrescentando que “é possível afirmar, desde já, que os acontecimentos não se deram da forma narrada pelas supostas vítimas, circunstância que será devidamente demonstrada no curso das investigações”.
Completou dizendo que “chama a atenção da Defesa o fato de as notícias de supostos delitos terem surgido de maneira sucessiva e correlacionada, circunstância que também será devidamente esclarecida ao longo da apuração".


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


