O delegado da Polícia Federal do Paraná, Jessé Ferry, disse ontem aos parlamentares da Comissão de Direitos da Câmara dos Deputados, em Brasília, que vem sendo ‘‘hostilizado’’ pelas polícias Civil e Militar do Estado, desde que prendeu em flagrante dois policiais militares por crime de tortura, no dia 24 de março, em Foz do Iguaçu.
Os policiais militares José Carlos Martins Oliveira e Vilson Martins foram presos sob acusação de torturar os sacoleiros Carlos Odair Maia e Marcos da Silva Cesário. Além dos depoimentos das vítimas, o delegado Ferry disse que solicitou a prisão em flagrante depois de constatar em laudo do Instituto de Médico-Legal (IML) que os dois rapazes tinham ferimentos nos corpos.
Durante depoimento na Câmara, o delegado da PF disse não concordar com uma nota oficial da Polícia Militar do Paraná, condenando a prisão dos dois policiais militares. Em uma ‘‘nota à imprensa’’, o comandante do 14º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Renato Ribeiro Peres, atribuiu a prisão dos dois PMs a ‘‘caprichos pessoais’’ e ‘‘interesses de terceiros’’. A nota foi divulgada depois que os policiais foram libertados pela Justiça.
Ferry disse que um delegado da Polícia Civil do Paraná declarou à imprensa local que teria ido pessoalmente à Polícia Federal libertar os acusados de tortura, pensando que eles eram policiais civis. O delegado da PF disse que tem recebido outros recados com hostilidade.
Ferry ganhou a solidariedade de vários parlamentares. Para o deputado Nilmário Miranda (PT-MG), a nota que o 14º BPM divulgou ‘‘incentiva a tortura’’. Miranda denunciou que as famílias dos dois sacoleiros têm recebido ameaças de morte, caso os dois rapazes não retirem as denúncias de tortura.
No dia 24, por volta de 9h30, os dois sacoleiros foram presos pelos dois PMs. Os sacoleiros tinham atravessado a Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai, em Foz do Iguaçu, e estavam com um pequeno carregamento de cigarros, o que se caracterizaria como crime de contrabando, de competência da Policia Federal.
Contudo, segundo Ferry, os dois rapazes só foram entregues à PF no início da tarde, cinco horas após a prisão, com sinais de tortura.
Para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o caso de prisão em flagrante de policiais no Paraná, acusados de tortura, seria inédito. O deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), que presidiu a reunião da Comissão de Direitos Humanos, disse que vai pedir a inclusão dos dois sacoleiros no Programa de Proteção a Testemunhas do governo federal.

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