São Paulo, 01 (AE) - O delegado Antero Leonardo Bianchi, de 57 anos, responsável pelo inquérito que apura as causas do deslizamento na Favela Morro da Lua, no Jardim São Roque, em Campo Limpo, zona sul de São Paulo, disse hoje que as 12 vítimas do acidente são as responsáveis pela tragédia. De acordo com o delegado, titular do 37.º Distrito Policial, em Campo Limpo, o caso foi um "acidente".
E pelo menos inicialmente não será investigada a hipótese de que a construção de uma escola de ensino fundamental da Prefeitura no alto do Morro da Lua tenha colaborado para a tragédia. O delegado tem 30 dias para concluir o inquérito - o prazo pode ser prorrogado por mais 30 dias.
"Se você vai para uma área de risco, assume esse risco", afirmou o delegado. "Eles são culpados por causar a própria morte." Para o delegado Bianchi, ao invadir a área e construir o barraco, o morador assumiu o fator "risco calculado". "Agora, acham que o Estado tem de dar casa para eles", disse.
Depoimentos - O primeiro passo da polícia será ouvir os moradores e parentes das vítimas do deslizamento, que ocorreu na segunda-feira (28). Além disso, o delegado aguarda o laudo dos peritos do Instituto de Criminalística (IC), que tem prazo de 30 dias para ser concluído e anexado ao inquérito.
Segundo as famílias da Morro da Lua, durante o processo de terraplenagem para a construção da Escola Municipal Francisco Reboulo, toda a terra retirada pelos operários da Prefeitura era jogada no desfiladeiro onde houve o acidente. Os moradores também afirmam que, em março de 1998, ocorreu um deslizamento no mesmo local do registrado na segunda-feira. Uma mulher, identificada apenas por Branca, teria sido soterrada e resgatada com vida.
O mestre-de-obras Valentim Antonio Rodrigues, de 60 anos
que há quatro meses é o responsável pela construção da escola, disse à reportagem que, quando chegou, já encontrou rachaduras e infiltrações no concreto da parte já concluída da obra.
Prefeitura - A Secretaria de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo negou que a obra tenha contribuído para a tragédia. De acordo com o secretário João Octaviano Neto, o deslizamento teria sido provocado por uma infiltração de água em todo o terreno da favela e pelos cortes na base do morro, feitos pelos moradores durante a construção de seus barracos. Segundo Neto, a base da escola está voltada para Rua dos Catarinenses, exatamente atrás da via onde houve o deslizamento de terra.
O Setor de Comunicação da Prefeitura informou que, em agosto, teria avisado aos moradores que a região oferecia riscos. Além disso, em dezembro, a Prefeitura registrou boletim de ocorrência da invasão no 89.º Distrito Policial, no Portal do Morumbi. De acordo com o delegado Bianchi, os representantes da Prefeitura e da Eletropaulo - proprietária da área - serão ouvidos em data ainda não definida. "Mas a Prefeitura se armou com vários documentos para mostrar que não tem responsabilidade no acidente", disse.