Brasília, 13 (AE) - O delegado Carlos Alberto da Costa Bayma, da Polícia Civil do Acre, disse à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público (MP) que um grupo liderado pelo deputado Hildebrando Pascoal (sem partido- AC) - apontado como líder de um esquadrão da morte - foi responsável por mais de 90% dos assaltos em Rio Branco em 1998. Nos dois depoimentos, que somam 27 páginas, Bayma sustentou que Pascoal procurou por ele na companhia de um traficante para fraudar documentos com o objetivo de aposentar a mãe do marginal junto à Previdência.
O delegado disse que, "sem sombra de dúvidas", 90% dos assaltos ocorridos no Acre, em 1998, tiveram "autoria intelectural" do sargento Alex Fernandes Barros, que está preso desde o dia 1º. Segundo Bayma, Barros era um "mero capataz" de Pascoal. "Romero", "Raimundinho" e "Mota" executavam os crimes do grupo. A Polícia do Acre registrou vários assaltos a bancos antes das eleições, em 1998, e o MP supeita que o dinheiro tenha sido usado na campanha eleitoral do deputado. O delegado afirmou que Pascoal tem "estreito laço de amizade" com traficantes do Acre contou que foi procurado pelo deputado, em 1998, em companhia de um traficante identificado apenas como Jair.
Pascoal insistia que Bayma assinasse uma declaração dizendo que a mãe do traficante não possuía renda para posterior pedido de aposentadoria fraudulenta junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Os depoimentos do delegado, nos dias 1º e 6, deixam claro que o grupo de Pascoal tinha farto armamento. Bayma disse que esteve na casa de Barros e viu 20 armas, entre elas uma espingarda de calibre 12, uma granada e um projétil de bazuca. No depoimento, o delegado disse que Barros confidenciou, na época, serem armas furtadas pelo soldado conhecido como "Di Sena", no 7º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército.
O grupo chefiado por Pascoal tinha grande influência no Poder Judiciário. No depoimento, o delegado entregou o nome de um ex-juiz que teria ligações com o tráfico e que soltava presos. Segundo Bayma, os presos trabalhavam na fazenda do juiz, quando este foi titular da Vara de Execuções Penais. Os depoimentos de Bayma serão entregues ainda esta semana à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara, que tinha ouvido algumas revelações do delegado na viagem ao Acre, no início do mês. A CPI deve convocar Bayma, que foi chefe de um grupo de combate às drogas no Acre em 1997.
O depoimento do delegado, na avaliação de parlamentares que receberam cópia do documento, deverá ser muito importante para a cassação e a prisão de Pascoal, pois ele trouxe novas explicações sobre crimes que tiveram o envolvimento do grupo do deputado. Bayma disse que resolveu depor com o objetivo de "colaborar para a solução da onda de terror que assola o Acre".
O delegado, que chorou durante os depoimentos, disse ter ouvido o irmão de Hildebrando Pascoal, Aureliano Paschoal, e Barros revelar participação no assassinato do mecânico Agilson Firmino, o "Baiano".
Segundo o delegado, Aureliano Pascoal e Barros disseram que "não queriam fazer aquilo" com "Baiano", que teve os membros cortados antes de levar tiros.
Barros confidenciou ao delegado que os olhos de "Baiano" foram furados com uma faca para que este revelasse o paradeiro de José Hugo, que matou o irmão de Hildebrando Pascoal
Itamar Pascoal, em 1996. Os irmãos Pascoal usaram carros da Polícia Militar do Acre para procurar "Baiano", segundo Bayma.
A caçada que Hildebrando Pascoal liderou para matar Hugo é explicada em detalhes pelo delegado. Segundo ele, Hildebrando Pascoal e mais dez policiais invadiram a casa de Hugo e destruíram os móveis. Bayma disse que não instaurou inquérito policial para investigar a invasão temendo um atentado contra a própria vida. Segundo o delegado, o deputado federal sem partido do Acre "era por demais perigoso, ao ponto de ameaçar os desembargadores do Estado do Acre".
Bayma conta que Hugo, ao ser assassinado por homens de Hildebrando Pascoal, no Piauí, teve a cabeça arrancada e levada para o Acre, numa caixa de isopor. Outra marca da violência dos homens de Hildebrando Pascoal ficou resgistrada durante a morte do policial Ayala, que recebeu um folheto com orações, antes de ser executado.
Em várias partes do depoimento, Bayma deixa claro que a Polícia Civil era omissa com relação aos crimes do deputado federal sem partido, nada fazendo para investigar e punir os responsáveis. Bayma soube que Barros entrou numa delegacia do Acre, da qual os titulares eram os delegados Henrique e Messias Ribeiro, e fuzilou um homem que estava preso. Bayma não apurou o caso.
O Ministério Público (MP) vai pedir à CPI a quebra dos sigilos bancário e fiscal de mais de 50 pessoas no Acre, acusadas de envolvimento com o narcotráfico. O MP vai pedir ainda auditorias em cinco grandes fortunas do Acre. A CPI vai receber levantamento mostrando que há 770 pontos de venda de droga somente em Rio Branco.

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