Delegada some com medo de bandido
Delegada some com medo de bandido
A falta de proteçao levou Miriam Elizabeth Lemos, chefe da Dnar em Campo Grande (MS), a deixar o Estado com a família
Luiz Taques
No Mato Grosso do Sul, policial é temente a bandido. Há pouco mais de uma semana, a delegada Miriam Elizabeth Lemos Dutra, 48 anos, três filhos, decidiu deixar o Estado pois tinha medo de ser assassinada. Miriam é a delegada-chefe da Delegacia de Narcóticos (Dnar), com sede em Campo Grande. Faz 13 anos que Miriam é delegada de polícia.
A delegada vinha recebendo ameaças de morte desde dezembro do ano passado. Contactada por amigas, a delegada ligou para a Folha de Londrina. Saí porque preciso viver, disse, por telefone. Agora consegui umas férias até 30 de março e só depois vou ver que rumo tomar na vida, acrescentou. Amigos a ajudaram a comprar a passagem de aviao para a fuga. É que o salário dos policiais do Estado está atrasado há dois meses.
Miriam Dutra era a responsável pelas investigaçoes do assassinato do delegado Robinson Maia, ocorrido em setembro de 1995 em Campo Grande. No dia 27 de abril de 95, Maia chegou a pedir proteçao à Secretaria de Segurança Pública. Como Miriam, também teve o pedido indeferido. Maia acabou sendo executado com tiros de metralhadora em plena avenida Bandeirantes, uma das mais movimentadas da capital.
Preciso da ajuda de policiais para que nos horários compreendidos entre manha, almoço e tarde dirijam-se até a minha residência para que assim eu possa me locomover até meu local de trabalho, diz um dos trechos do ofício enviado pelo delegado Robinson Maia ao governo do Estado.
Na época, o delegado Maia (antes de pedir proteçao ele já havia sofrido um atentado) estava investigando uma quadrilha de traficantes com ramificaçoes no Mato Grosso do Sul. Morreu sem ter conseguido prender ninguém. Com a morte dele, a delegada também passou a investigar a mesma quadrilha. Começava aí o seu pesadelo.
Faziam ligaçoes para o telefone da própria delegacia e para o meu celular, lembra Miriam Dutra. Por precauçao, ela achou por bem mudar-se temporariamente para a casa de amigos. Mas nem assim pararam com as ameaças, conta. Os bandidos chegaram a jogar uma bomba caseira no quintal da casa dela. Há suspeitas de que algumas dessas ameaças podem ter sido feitas por integrantres da própria polícia.
A Folha apurou que o último esconderijo de Miriam Dutra, antes de deixar o Estado, foi à casa do delegado Marcos Pinheiro, diretor de Polícia da Capital. Nem ali ela teve descanso. No dia 17 de fevereiro, a delegada pediu, através de ofício, proteçao policial à Secretaria de Segurança Pública, mas o pedido foi negado. Foi a gota dágua.
Manifestamos nossa preocupaçao com o aparelho estatal que, de modo inintelegível, expoe seus agentes sem lhes oferecer a contrapartida necessária, diz um dos trechos da nota enviada ao Ministério da Justiça pelo Centro de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos Marçal de Souza Tupa-I, cuja sede fica em Campo Grande.
A atitude dela significa a falência do Estado, afirma o presidente da OAB/MS - Ordem dos Advogados do Brasil, Carmelino Resende. Se a própria polícia nao consegue se autodefender, imagine o cidadao comum, compara Resende.
Nilton de Andrade dos Santos, conhecido como Pepito, é o principal suspeito de ter matado o delegado Maia. No ano passado, Pepito foi preso pela Polícia Federal. A Justiça Federal o condenou a mais de 20 anos de reclusao por tráfico de drogas.
Por mais de uma vez e por pouco que Pepito nao consegue fugir do Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande. No início do ano, ele acabou sendo transferido para o presídio da Papuda, em Brasília. Os seus comparsas, no entanto, ainda continuam livres. A julgar pelo exílio forçado da delegada, parece que eles nao costumam blefar nao.





