Seattle, 04 (AE) - Há dez dias, quando as negociações preparatórias para a terceira reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio fizeram água, em Genebra, depois de dois meses de conversas infrutíferas, a representante de comércio da Casa Branca, Charlene Barshefsky, mostrou-se imperturbável. Com sua autoconfiança e prestígio reforçados pelo sucesso das complexas negociações bilaterais sobre o acesso da China à OMC, que conduzira na semana anterior em Pequim, a ministra do comércio exterior dos Estados Unidos disse que a ruptura e a retomada das discussões eram episódios normais de qualquer negociação. "Não estou nem um pouco preocupada", disse ela. "No final, as coisas se acertarão, até porque todos (os participantes) sabem que o fracasso não é uma opção".
No final, as coisas não se acertaram . Na noite de sexta-feira, depois de três dias e três noites de negociações, os ministros suspenderam a reunião sem conseguir superar nenhum dos impasses que haviam impedido o consenso antes de chegarem a Seattle. Exaustos, eles engavetaram o projeto de lançar uma nova rodada de liberalização do comércio global - a primeira desde a criação da OMC, em 1994 - e anunciaram que retomarão as negociações em data não marcada, no ano que vem, na sede da organização, em Genebra.
O fracasso da reunião encerrou uma semana extraordinária de protestos nas ruas de Seattle e transformou as centenas de sindicatos e organizações não governamentais que mobilizaram mais de 50 mil manifestantes contra a OMC e a globalização nos únicos vitoriosos. "Imagine como serão as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, daqui para a frente", observou um embaixador de um país andino. "Os países em desenvolvimento resistem e os ambientalistas alcançam seu objetivo de impedir o lançamento de uma nova rodada", festejou a ONG Amigos da Terra, num dos vários comunicados que começaram a ser distribuídos tão logo se confirmou o colapso dos entendimentos.
Representantes de países mais pobres, que haviam deixado claro sua revolta por se sentirem excluídos do processo de deliberações conduzido por Barshefsky, e insultados pela maneira um tanto óbvia como o presidente Bill Clinton usou os protestos nas ruas para fazer política doméstica, promovendo objetivos que eles consideram contrários a seus interesses, sabem que o fracasso da reunião de Seattle apenas enfraquecerá a OMC e limitará a liberalização dos mercados nos países ricos nos próximos anos à agenda pendente da última rodada de negociações, encerrada há mais de cinco anos. "E o pior é que o governo americano aumentará ainda mais a frustração dos países em desenvolvimento, que saíram perdendo até agora com a liberalização do comércio, pois provavelmente usará o fracasso da reunião como munição em sua campanha eleitoral", disse um diplomata.
As dificuldades de ser chegar a um entendimento na fase preparatória a Seattle já tornara evidente que a reunião levaria
na melhor das hipóteses, a uma rodada de negociações pouco ambiciosa. Mas aos olhos dos delegados da maioria dos 135 países integrantes da OMC, o fiasco de Seattle foi o resultado do que mais de um deles classificou de "extraordinária inabilidade diplomática dos americanos" e da completa falta de organização da reunião.
Um advogada conhecida por seu talento para a confrontação em negociações bilaterais, Barshefsky perdeu o controle da reunião no primeiro dia. "Ela não entendeu, em nenhum momento, o tipo de processo que estava presidindo e mostrou-se simplesmente incapaz de desempenhar o papel de facilitador de acordos que cabe ao país anfitrião em encontros multilaterais", disse um diplomata.
De acordo com essa visão, o desastre começou a se desenhar quando a ministra americana decidiu, no primeiro dia, que a melhor maneira de produzir um acordo de uma forma mais transparente era criar quatro grupos de trabalhos sobre os temas mais complicados da agenda e abri-los para todos os países interessados em participar. Com o ambiente dentro do Centro de Convenções já contaminado pelas manifestações nas ruas, Barshefsky provocou a ira de várias delegações convocando um quinto grupo para discutir uma proposta americana de criação de um grupo de trabalho sobre direitos trabalhistas e comércio, uma reivindicação rejeitada pelos países em desenvolvimento como um cavalo de Tróia de um novo tipo de protecionismo.
A manobra provocou fortes reações e azedou ainda mais o ambiente. Subordinados de Barshefsky alienaram de vez as delegações africanas no dia seguinte requisitando todos os tradutores que estavam trabalhando em uma de suas sessões de consulta para atuar numa outra reunião, sem dar maiores explicações.
Para agravar a situação, vários delegados de países em desenvolvimento foram barrados na entrada das reuniões do "green room", um grupo de cerca de vinte países mais relevantes para o comércio internacional que Barshefsky convocou apenas no segundo dia da reunião para tentar obter o consenso necessário para assegurar o lançamento da rodada.
Ao encerrar a reunião, numa melancólica sessão plenária, Barshefsky apontou a complexidade dos temas e a necessidade de uma maior transparência interna na OMC como as causas do fracasso da reunião. "O fracasso foi um fracasso de governos", disse ela. "Os governos simplesmente não estavam prontos para ir para frente nas várias questões". Ela negou que o fracasso fosse, desde o início, a opção secreta de Washington para a reunião de Seattle, por se tratar do desfecho desejado pelos sindicatos americanos e que, talvez, melhor atenda aos objetivos da campanha do vice-presidente Albert Gore à Casa Branca.
Barshefsky disse que o compromisso dos EUA com o projeto de lançamento de um nova rodada de liberalização do comércio continua intacto. Mas é difícil ver como uma agenda de abertura comercial poderá ser operada num ano eleitoral nos EUA. Por essa razão, o fiasco de Seattle poderá comprometer a aprovação no Congresso americano do acordo de acesso da China à OMC e esvaziar o maior sucesso da carreira de Barshefsky.

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