Rio, 08 (AE) - A Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública (DRSP) do Rio vai ouvir o atual e o antigo donos da Clínica para Repouso de Idosos da Associação dos Ex-Alunos da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (Adefomm), em Jacarepaguá, zona oeste da cidade. A clínica foi interditada ontem (07) pelo ministro da Saúde, José Serra, depois de comprovada denúncia de maus-tratos a pacientes. Hoje os 60 internos foram removidos do local.
O empresário Nuno Lisboa Junior vendeu a clínica para Ricardo Varella em agosto do ano passado. Lisboa Junior era dono da Campo Belo, que funcionava no local e foi incluída na relação das 16 clínicas geriátricas que sofreram intervenção do Ministério da Saúde em junho de 1996. Entre elas a Casa de Saúde Santa Genoveva, onde morreram 102 idosos. A polícia apura uma susposta ligação entre Lisboa Junior e Varella.
Segundo o delegado Jomar Sarkis, na razão social da clínica ainda está o nome Campo Belo, embora o proprietário tenha mudado há seis meses. "Queremos apurar essa irregularidade e por isso vamos chamar para depor os dois empresários", disse Sarkis. O delegado disse que Varella e outros diretores responderão por crime por maus-tratos (pena de 2 meses a 1 ano de prisão) e por infração de medida sanitária preventiva (1 mês a 1 ano de detenção).
Em 1996, os donos da Campo Belo foram multados pelo Conselho Regional de Nutrição. Foram encontrados coliformes fecais e restos de animais em decomposição na copa e na cisterna da clínica, o que poderiam ter contribuído nas mortes de 210 pacientes em apenas três meses.
Fecha - Hoje o procurador da República no Rio, Rogério Nascimento, disse que há seis meses vem tentando fechar o estabelecimento. "Enviei três ofícios ao escritório do Ministério da Saúde no Rio pedindo o descredenciamento da Campo Belo, mas não obtive resposta", disse Nascimento. Segundo o procurador, em abril do ano passado, o médico responsável pela clínica, Glauber da Costa Milach, disse em depoimento que 40% da verba repassada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a Campo Belo era desviada por seus donos. Apesar da denúncia, Nuno Lisboa Junior, que não foi encontrado hoje para falar à reportagem, não responde a nenhum processo na Justiça do Rio.
A coordenadora da Secretaria Municipal de Saúde da Barra e Jacarepaguá, Márcia Mochel, disse que seus técnicos vem fiscalizando a clínica "com frequência" desde a intervenção em 1996. "Nesse período reduzimos o número de leitos de 576 para 48 e proibimos novas internações pelo SUS", explicou. Segundo ela, com a entrada da Adefomm, as condições da Campo Belo melhoraram."Só a partir de dezembro é que começamos a perceber que eles não vinham mais atendendo satisfatoriamente nossas exigências", disse Márcia.
A médica contou que o principal problema era a falta de funcionários. Havia cerca de 100 funcionários para atender os 60 internos. Em um dos pavilhões, apenas duas auxiliares de enfermagem se revezavam no atendimento de 31 pacientes. "Muitos ficavam até uma semana sem banho", admitiu a enfermeira Iracema Serafim. Hoje à tarde, a secretaria terminou a remoção dos 60 pacientes.