Curitiba - A cada 15 segundos, uma mulher sofre violência doméstica no Brasil. A estatística é preocupante. Nem todos os casos de violência são denunciados. Muitas mulheres resolvem suportar caladas para manter a família e os filhos. Os casos de punições de maridos agressores eram pequenos. Mas o quadro deve mudar após a aprovação da Lei Federal 11.240 de 2006 -conhecida como Lei Maria da Penha. A legislação traz mudanças significativas como a possibilidade de prisão em flagrante do agressor, decretação de prisão preventiva em qualquer fase das investigações e proibição de penas pecuniárias como doação de cestas básicas e multas.
A mudança só foi possível com a luta de Maria da Penha Maia Fernandes. Ela foi vítima de duas tentativas de homicídios e viu seu ex-marido sendo beneficiado por legislações arcaicas mesmo depois de ser condenado pela Justiça. Ontem, ela esteve em Curitiba para esclarecer o movimento de mulheres sobre as punições previstas na Lei Federal. Aproveitou para apelar às autoridades estaduais que dêem mais atenção aos casos de agressão doméstica.
Segundo Maria da Penha, não é possível haver delegacias de polícia voltadas ao atendimento das mulheres fechadas à noite, nos sábados e nos domingos. ''Temos que nos conscientizar que os crimes contra mulheres ocorrem normalmente à noite e nos finais de semana. São nos momentos em que os casais estão juntos, dentro de casa. Manter as portas fechadas para que a mulher procure outra delegacia é mais uma violência'', ponderou ela.
Dados apresentados pela Unesco revelam que a violência contra a mulher custa para o Brasil R$ 80 bilhões -10,5% do Produto Interno Bruto (PIB). ''Temos que acabar com a violência de gênero. Fazemos isso divulgando as penas da nova lei. Fazendo com que as penas sejam cumpridas. Por que o homem bate na mulher? Para reafirmar a idéia de poder dele sobre ela. A idéia de que ele é superior. Ele tem necessidade de alimentar a inferioridade e a subordinação da mulher, obrigando que eles façam tudo o que eles querem'', relatou.
Maria da Penha segue para o interior de São Paulo onde participa de romaria contra a violência doméstico por conta de um assassinato de uma mulher que desrespeitou a vontade do marido e cortou os cabelos. ''Ainda existe o preconceito. As mulheres são castigadas e mortas ainda hoje por desafiar a ordem masculina. Os homens se vêem no direito de dar um corretivo para as mulheres''.
De acordo com Maria da Penha, a violência doméstica segue um ciclo dramático. Primeiro ocorrem as ameaças, que são seguidas por um descontrole por causa da tensão acumulada, utilização de objetos para machucar a mulher, até os socos e pontapés. Depois das agressões, o marido acaba se arrependendo e se reconciliando com a mulher. ''Ele muda de comportamento e faz a mulher acreditar que isso não mais vai ocorrer. Mas continua acontecendo. É um ciclo vicioso. Cada vez que a mulher fica calada, ela corre riscos ainda maiores que podem culminar em violências mais fortes e morte''.
A Secretaria Estadual de Segurança Pública do Paraná informa que a Delegacia da Mulher, em Curitiba, atende diariamente, das 8 às 18 horas. À noite, mesmo com as portas fechadas, o plantonista da delegacia recebe as pessoas que procuram o local. Ou então, encaminha, os casos mais urgentes para os Centros Integrados de Atendimento ao Cidadão.

mockup