Dekasseguis enviam mais dinheiro ao Brasil
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sexta-feira, 23 de abril de 1999
Por Antonio Celso Villari 
São Paulo, 24 (AE) - Estimulados pela alta do dólar no Brasil, os dekasseguis (brasileiros que trabalham no Japão) estão enviando mais dinheiro para seus familiares no País. Na sexta-feira, o Departamento Econômico do Banco Central (Depec) divulgou que as transferências de recursos dos brasileiros residentes no exterior para o País, no primeiro trimestre, fecharam em US$ 604 milhões, ou seja, 32,16% a mais do que no mesmo período do ano passado. Altamir Lopes, chefe do Depec, disse que esse resultado é consequência da desvalorização do real e foi puxado, principalmente, pelos dekasseguis.
Segundo dados do Centro para Informações e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), entre 1990 e 1996 a remessa anual média de dólares dos brasileiros no Japão foi de US$ 3,5 bilhões. No ano passado, essa quantia caiu para US$ 1,7 bilhão.
"Com a desvalorização do real, no início do ano, boa parte dos brasileiros que estavam prestes a fazer o caminho de volta resolveu ficar um pouco mais no Japão e está mandando uma quantidade maior de dinheiro para cá", admite Massato Nimomiya, presidente do Ciate.
Salários menores - Durante 1998, os dekasseguis viveram na pele a crise econômica asiática, responsável por muitas demissões e, sobretudo, diminuição das horas extras. Com isso, os salários médios desses trabalhadores foram bem reduzidos. "Quem ganhava US$ 3,5 mil começou a receber da noite para o dia aproximadamente US$ 2 mil", explica Sérgio Morinaga, presidente da Associação dos Imigrantes no Brasil (Asibras).
Mulheres, que até abril não podiam trabalhar à noite, agora podem fazê-lo legalmente nos mesmos cargos dos homens. "Obviamente, ganhando menos", afirma Kazuo Shindo, da agência Sunmax, que encaminha brasileiros para fábricas no Japão. "Se os homens ganham US$ 2 mil numa empresa, no mesmo cargo as mulheres recebem entre US$ 1,2 mil e US$ 1,5 mil", ressalta Shindo.
Assim, a sobra de dinheiro dos dekasseguis (depois de descontada moradia, alimentação e impostos) caiu bastante. "Também não podemos nos esquecer de que, com a crise econômica brasileira, o dinheiro que chega ao País está sendo usado pela maioria das famílias para cobrir despesas domésticas e não, necessariamente, em investimentos imobiliários, como ocorria muito há quatro ou cinco anos", prossegue Morinaga.
Outros preferem deixar o dinheiro que sobra em poupanças no Japão, como a família de Luiz Ossamu Suzuki, que tem cinco irmãos e seis sobrinhos naquele país. "Mesmo diante desse momento propício, nenhum deles está enviando dólares para o Brasil", admite.
Suzuki avalia que o receio com a economia brasileira ainda é muito grande e seus familiares têm achado melhor poupar em bancos locais. Prova disso é que no bairro da Liberdade, em São Paulo, a Koga Imobiliária não teve aumento nas compras de imóveis por parte dos dekasseguis desde o início do ano.
Yuko Kobayashi, diretora da empresa, explica que quem vem comprando imóvel no bairro são os chineses.
Em Mogi das Cruzes, cidade da região metropolitana de São Paulo com uma grande população de descendentes de japoneses, o mercado imobiliário também não registra crescimento nas vendas para esse público: "Só quem fica mais de cinco anos no Japão é que consegue guardar dinheiro para investimentos desse tipo", garante Sojhi Kiyokawa, proprietário de uma imobiliária local.
No seu entender, atualmente a maior parte dos dekasseguis apenas sobrevive no Japão e está realmente enviando dinheiro para ajudar familiares desempregados no Brasil.


