Seul (AE-AP) - O corpo da deficiente física de nove anos foi encontrado próximo a um riacho no sul de Seul. Um afogamento acidental, disse o investigador. Mas descobriu-se também que os relapsos funcionários da instituição onde ela vivia não comunicaram seu desaparecimento por três dias.
Em outro incidente, sete empregados da Yangji, um abrigo para alcoólatras e sem-teto na região centro-sul da Coréia, foram condenados por apropriação indébita. Os internos do abrigo alegaram que os trabalhadores também estupraram diversos pacientes, mas a polícia disse que não havia provas.
Estes são alguns dos diversos casos registrados nos últimos anos que revelam a negligência e a rotina dos abrigos estatais e também lança suspeitas sobre esterilizações forçadas e ataques sexuais.
Os advogados dos deficientes fazem reclamações sobre a baixa qualidade do tratamento fornecido pelo estado, mas são solenemente ignorados.
Muitos dos que têm algum tipo de deficiência sofrem com o banimento na Coréia do Sul, onde a influência do Confucionismo ensina a reverência à genealogia e as pessoas são muito conscientes a respeito do que os outros pensam sobre elas.
Uma criança nascida com problemas físicos ou mentais é considerada um sinal de deficiência sanguínea e as pessoas geralmente tentam escondê-la. Muitos pais preferem mandar essas crianças para abrigos em vez de cuidar delas em casa e alguns poucos abandonam crianças em frente a instituições estatais.
Há poucas facilidades para os deficientes. Rampas para cadeiras de rodas são escassas e o único meio de cruzar as ruas principais da capital, Seul, é descer os longos lances de escadas que dão acesso às passagens subterrâneas.
"Para a maioria dos coreanos, ter um deficiente na família é uma vergonha. Muitas famílias tentam escondê-los em vez de tratá-los devidamente", diz Kim Young-wook, professor de educação especial da Universidade Dankook de Seul.
O caso de Choi Mi-sun, a menina afogada, ocorreu em 1997 e levou a um ampla investigação em Evada, o centro de bem-estar para crianças com problemas de fala e audição onde ela vivia. O diretor da Evada, na cidade de Pyongtaek, foi condenado por apropriação indébita e recebeu sentença de um ano e meio, que foi suspensa.
"Muitas instituições de bem-estar tornaram-se locais seguros para pessoas desonestas para desviar fundos e fazer qualquer coisa que queiram por causa da falta de controle por parte do governo", disse Kim Yong-han, ativista pelos direitos humanos.
O governo nega que a corrupção seja frequente, afirmando que as autoridades locais monitoram adequadamente as instituições estatais na maioria dos casos. "O governo central não tem o funcionários suficientes para controlar diretamente todas as instituições", diz Kang Ki-ho, do Ministério da Saúde e Bem-Estar Social.
O governo diz que gastou mais de 400 bilhões de wons (US$ 350 milhões) em 1998 para sustentar 841 orfanatos, instituições para doentes mentais e centros de bem-estar que abrigam 77.000 pessoas. A população da Coréia do Sul é de 47 milhões.
O Ministério da Saúde investiga as acusações de que funcionários de pelo menos sete instituições estatais forçaram a esterilização de cerca de 160 pacientes, a maioria deles com doenças mentais, entre 1983 e 1998.
As acusações são baseadas em relatos de ex-pacientes e foram recolhidas numa recente pesquisa organizada por Kim Hong-shin, um parlamentar pertencente ao do Grande Partido Nacional, de oposição ao governo. Segundo Kim, as operações foram ilegais porque não foram realizadas com a permissão dos pais dos pacientes. Os diretores das instituições, porém, dizem que contavam com aprovação dos responsáveis.
Esterilização forçada é um crime punível com penas de até 10 anos de prisão, mas o governo defende sua legalidade com permissão dos pais. "Se um casal de deficientes mentais tem um filho, nós temos de empregar mais pessoas para cuidar do bebê, porque eles não terão condições de fazê-lo. O triste fato é que nós não dispomos de dinheiro para isso", disse Kong Bang-hwan, porta-voz do Ministério do Bem-Estar Social.
Desenvolvimento econômico vem sendo uma prioridade na Coréia do Norte, que evoluiu de uma nação agrícola pobre depois da destruidora Guerra da Coréia, para um estado industrial em apenas poucas décadas. Bem-estar e outras questões sociais ficaram em segundo plano.
Um taxista de Seul, de 46 anos, disse que ele e outros pacientes foram esterilizados no centro de bem-estar em Eunsung, na cidade de Kwangju, região sul do país, há 16 anos. Na época, ele era um lavrador e estava sob tratamento para hipocondria.
"Alguns gritaram, foram espancados e arrastados para aquela sala de operação temporária da instituição", conta, pedindo para não ser identificado porque sente vergonha. "A maioria não ousou resistir por temer o espancamento."

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