São Paulo, 5 (AE) - Os perueiros ganharam espaço em São Paulo em boa parte por conta das deficiências na fiscalização e da complacência do poder público, segundo especialistas. "Por muito tempo a Prefeitura fechou os olhos ao problema e, agora, não sei como vai fiscalizar os clandestinos", diz o consultor de Transportes Maurício Cadaval. "Vans conquistaram um espaço que dificilmente vai desaparecer, mas é importante que não ocupem mais que 10% do mercado ou o tráfego vai-se tornar impraticável."
Segundo ele, o desemprego e as deficiências dos ônibus contribuíram para essa expansão. E a queda no número de passageiros tem ligação direta com o aumento da frota de carros nos últimos anos. Mas o diretor-executivo da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Aílton Brasiliense Pires, lembra que a cidade cresceu desordenadamente e trocou o sistema sobre trilhos pela cultura do automóvel faz tempo. "Na década de 50, havia na cidade 135 quilômetros de ferrovias e 135 km ligando com a região metropolitana." Além de 600 km de bondes. "São Paulo não teve planejamento urbano nem de transporte público."
A expansão dos ônibus foi incentivada, diz Pires. "Mas nos anos 80 e 90 ficamos desestruturados, com o poder público mandando o transporte às favas, deixando o empresário oferecer porcaria", diz. "A Prefeitura não fiscalizou, foi complacente e a qualidade dos ônibus caiu muito na avaliação dos passageiros." Segundo ele, no governo Erundina, em 1991, as críticas eram grandes e foi feito só o mínimo: aumentar o número de ônibus. "Mas a gestão continuava ruim." Na época as peruas eram 600; os ônibus clandestinos, cerca de mil.
Para o diretor-técnico do Transurb, sindicato das empresas de ônibus, Marcelo Marques, as peruas ganharam força em 92 e 93, com as greves de motoristas. "Supriam a deficiência", diz. Queixas de superlotação, descumprimento de horário, baixas velocidade e qualidade seguiram nas gestões Maluf e Pitta. O mau funcionamento dos ônibus abriu caminho para a expansão dos perueiros, que atraíram a população. A situação piorou após 1996. As peruas, de 5 mil em 1997, segundo a Prefeitura, hoje são entre 14 mil e 18 mil.
Mas, segundo o presidente do Sindlotação, Célio dos Santos, os lotações funcionam desde os anos 60: "Cobriam áreas onde as empresas de ônibus não queriam ir, nas periferias." Ele diz que a primeira associação de perueiros surgiu em 1981. "Em 1987, eram mil na cidade." E, em 95, já havia preocupação de organizar o setor. "Mas fomos tratados como escória pelo poder público."
O secretário dos Transportes, Getúlio Hanashiro, nega que houve complacência com os perueiros. "Herdamos um sistema de remuneração de ônibus ruim e o Código de Trânsito Brasileiro fez a nossa multa para transporte irregular de passageiros cair de 3.000 Ufirs para 80, dificultando a punição." Esse valor mais alto já foi restabelecido.

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