Curitiba - Apreensão. Era esse o clima no primeiro dia do julgamento de Beatriz Cordeiro Abagge, de 47 anos, que começou ontem no 2º Tribunal do Júri de Curitiba. Depois de 19 anos, ela enfrenta o júri acusada de ter participado, em abril de 1992, junto com outras seis pessoas, da morte do menino Evandro Ramos Caetano, 6, em um ritual de magia negra, em Guaratuba, no Litoral. A mãe de Beatriz, Celina Cordeiro Abagge, hoje com 73 anos, também poderia estar sendo julgada, mas por ter mais de 70 anos, teve a punibilidade extinta, segundo a lei brasileira. A expectativa é que o julgamento termine hoje.
Esta é a segunda vez que Beatriz vai a julgamento. Na primeira vez, em 1998, ela e a mãe foram consideradas inocentes porque não havia provas de que o corpo encontrado desfigurado num matagal, cinco dias após o desaparecimento do garoto, seria de Evandro. O Ministério Público do Paraná (MP-PR) recorreu e o julgamento foi anulado. Os outros cinco acusados foram a julgamento em 2004, quando três foram condenados e dois absolvidos pelo júri.
A dúvida sobre a identidade do corpo encontrado é novamente a tese principal sustentada pela defesa. Como dado novo, o criminalista Adel El Tasse questionou a legalidade do Termo de Reconhecimento Técnico do setor de Odontologia do Instituto Médico Legal (IML), documento que afirma que a arcada dentária do corpo encontrado coincide com a de Evandro. ''Esse documento não tem validade nenhuma. Ele deveria ter a assinatura de odontolegistas, mas uma das assinaturas é de uma ex-auxiliar de necropsia do IML, que não tem conhecimento para tal'', disse o médico perito Alecsandro Cavalcanti.
A primeira testemunha ouvida, o ex-perito do IML, Artur Conrado Driesche, também deixou dúvidas sobre a identidade do corpo. Ele contou que esteve em Guaratuba um dia após encontrarem o cadáver, mas não havia nenhum sinal de amassamento no capim como seria esperado caso o corpo estivesse no local há uma semana. Ele também questionou a altura do corpo, de 1m19, que seria incompatível com um garoto de seis anos e o tipo das lesões encontradas, não condizentes com cortes por serra, como constam dos autos.
A defesa também apresentou parecer do médico legal Jorge Paulete Vanrell, perito especial da Presidência da República para casos de tortura e violência Institucional, que comprovam que Beatriz foi submetida a tortura. A intenção é derrubar a principal prova da acusação, uma gravação na qual Beatriz confessa o crime. Segundo a defesa, ela e a mãe só confessaram para se ver livres da tortura a que eram submetidas.
Ao todo, foram ouvidas ontem sete testemunhas, três de acusação e quatro de defesa. Por volta das 20 horas, o plenário foi esvaziado para o depoimento de Beatriz Abbage, que não havia terminado até o fechamento desta edição. O julgamento deve ser retomado hoje pela manhã.

mockup