Defesa de Rainha apontou contradições nos depoimentos das testemunhas
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terça-feira, 04 de abril de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo Enviado especial 
Vitória, 05 (AE) - Os advogados do líder sem-terra José Rainha Júnior sustentaram durante as duas horas de debate que seu cliente estava no Ceará na época do crime. Aton Fon Filho, um dos oito defensores do líder sem-terra, voltou a citar as declarações públicas de testemunhas - entre elas, a do governador Tasso Jereissati (PSDB) -, que disseram ter estado com Rainha entre os dias 30 de maio e 7 de junho de 1989. Os assassinatos do fazendeiro José Machado Neto e do soldado Sérgio Narciso ocorreram no dia 05 de junho daquele ano, no norte do Espírito Santo.
Coube ao ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, outro assistente da defesa, mostrar as contradições das testemunhas José Jorge Guimarães, o Zé do Côco, e Jurandir Mendes, arroladas pela acusação. Em seu depoimento ao júri, Mendes contou que esteve na propriedade de Machado um dia antes do crime, quando afirmou ter encontrado cinco invasores, que disse não saber quem eram. Ao juiz Ronaldo Gonçalves de Sousa, a testemunha disse conhecer um dos co-réus, Gilberto Jesus Silva, o Cascabulho.
Greenhalgh, então, leu o depoimento em juízo do gerente da fazenda, Etevaldo da Silva Machado, que acompanhou Mendes na visita, junto com o sobrinho do fazendeiro, Cláudio Rezende. Machado disse que entre os cinco invasores da fazenda com quem eles conversaram estava Cascabulho, o mesmo citado por Mendes. O advogado de Rainha também apontou uma série de contradições nos quatro depoimentos de Zé do Côco, incluídos no processo.
Considerada a principal testemunha da acusação, Guimarães era o motorista que teria levado Rainha para a fazenda de Machado na noite anterior ao crime. Greenhalgh lembrou então que na Polícia Militar, horas depois do conflito na Ypuera, Zé do Côco disse que ouviu por outro que a pessoa que havia pego na estrada, minutos antes da invasão, era Rainha. No dia seguinte, já na Polícia Civil, a testemunha disse que pegou um integrante do grupo que "mais tarde veio a saber que era Rainha". Tanto no IPM quanto na Polícia Civil, Zédo Côco disse que o dirigente do MST estava armado.
Já em seu depoimento em juízo, Zé do Côco descreveu Rainha como um homem "alto, com o rosto arrendondado, mais ou menos gordo, de 1,70 metro e de cabelos encaracolados". Nesse mesmo depoimento, a testemunha disse "não se lembrar" se Rainha estava armado. "Ora, eu não quero dizer que a testemunha está mentindo, mas no mínimo está equivocada, talvez por ser uma pessoa simples", afirmou o advogado. "Por isso, acho que os jurados devem deter-se bem ao depoimento dele dado ontem, quando disse ter certeza que era José Rainha a pessoa que ele levou naquela noite".
O terceiro advogado da defesa a falar, Evandro Lins e Silva, fez uma ampla defesa do MST e comparou a sua luta à dos abolicionistas Silva Jardim, Quintino Bocaiúva e Joaquim Nabuco. "Junto com a abolição dos negros, eles também pediram por reforma agrária", afirmou Lins e Silva, que comemorou o resultado. "A vitória é sempre mais doce", disse o decano dos criminalistas, de 88 anos, que, apesar da idade, anunciou que não pretende se aposentar. "O júri é uma tentação; sempre que me perguntam qual foi o maior das minhas atuações, eu respondo: a próxima", afirmou.


