Londrina – Uma rede acessada apenas por browsers (navegadores) específicos, criptografada, não indexada e que não permite rastreamento. As características acima se referem à Deep Web, pouco utilizada pela população em geral, mas campo fértil para a disseminação de crimes cibernéticos por traficantes, pedófilos e terroristas.
A Deep Web era o ambiente usado pela quadrilha de pedófilos desbaratada há duas semanas pela Operação Darknet, da Polícia Federal (PF). Na ocasião, foram presos 53 suspeitos em 18 Estados e no Distrito Federal. O bando usava essa "internet paralela" para armazenar e divulgar fotos de pornografia infantil. Os integrantes da quadrilha também são suspeitos de abusar sexualmente de crianças e adolescentes. A PF desenvolveu ferramentas específicas de rastreamento para conseguir identificar os criminosos.
A Deep Web tem extensão .onion, funciona por camadas e apenas com o navegador específico Tor. A rede leva o usuário a vários lugares antes de encontrar o endereço desejado, justamente para não deixar rastro. "Em qualquer site da rede convencional o caminho percorrido fica registrado nos servidores e provedores. Na Deep Web existem vários ‘nós’, caminhos para não identificar de onde você está plugado e por isso aparecem endereços de vários países na identificação", explica Luciano Soler, professor de Engenharia da Computação da Universidade Norte do Paraná (Unopar), em Londrina.
Fazendo uma analogia com um iceberg, a internet que conhecemos seria a ponta do bloco de gelo e a Deep Web, todo o restante. Esse é exatamente o significado da expressão em inglês: "rede profunda". "De tudo que existe na internet, 70% estão na Deep Web e, na sua grande maioria, são sítios ocultos e clandestinos, sigilosos e de caráter ilícito", alerta o delegado titular do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber), Demétrius Gonzaga de Oliveira.
A dificuldade na identificação atrai muitos usuários. Alguns apenas não querem publicidade e buscam privacidade. E isso permitiu o surgimento de associações como WikiLeaks e Anonymous. A maioria, no entanto, se aproveita para cometer crimes e permanecer anônima. "Os registros de acessos, os logins e os IPs não ficam guardados e, por isso, se na internet comum é difícil encontrar os autores, na Deep Web é muito mais complicado. Só mesmo através de uma investigação delicada e especializada", aponta o advogado Fernando Peres, especialista em crimes cibernéticos.
Essa sensação de impunidade transforma a Deep Web em uma terra fértil para crimes gravíssimos. "Na internet existem criminosos profissionais e amadores. Pode ter certeza que os profissionais estão na Deep Web. Nessa internet não há publicidade. Os crimes são direcionados para um grupo específico, restrito. O objetivo é vender, negociar. De profissional para profissional", frisa Peres.
Luciano Soler revela que a Deep Web possui informações úteis e positivas, mas alerta que o usuário pode se deparar com muita coisa indesejada. "Como os sites são criptografados é difícil identificar se o conteúdo é bom ou ruim. Na convencional, alguns browsers conseguem apontar se há vírus, identificar fraudes ou sites falsos e notificar o usuário. Na Deep Web não", ressalta o professor. Além disso, o sistema é mais lento, os principais caminhos são em inglês e a interface é considerada "feia", já que não há preocupação com o layout e quase não existem imagens.
Utilizar a Deep Web requer reforço na "segurança" dos computadores e ferramentas para mascarar o IP. "Os criminosos que estão na rede têm o objetivo de plantar vírus para contaminar a máquina dos usuários e ter acesso as suas informações", frisa o delegado do Nuciber.
Para Fernando Peres, o caminho para diminuir o número de crimes na rede é educar o usuário para ter precaução na hora de realizar cadastros, disponibilizar senhas e acessar sites e redes sociais.

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