Decisões sobre financiamento da reforma agrária no sul do Pará caberão à equipe econômica do governo
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quinta-feira, 06 de maio de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 07 (AE) - As decisões sobre o financiamento da reforma agrária no sul do Pará deverão ser tomadas, a partir de agora, pela equipe econômica do governo. Até hoje, o orçamento vinha sendo definido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). "Vamos tentar deslocar o centro de decisão do sul do Pará para Brasília", explica Maria Oliveira, da comissão de conflitos, que está em Marabá negociando com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri).
Hoje, o encontro entre os trabalhadores e os funcionários públicos ocorreu em uma escola com forte esquema de segurança, feito pelas Polícias Militar e Federal. A equipe do Incra de Brasília decidiu não retornar para a sede do órgão enquanto o prédio estiver sitiado por cerca de 10 mil trabalhadores. Fernando Santiago, da Coordenação Estadual do MST no Pará, diz que a quantidade de acampados deverá ser duplicada nos próximos dias: "O pessoal que está acabando de trabalhar na colheita vem participar da manifestação". Ele não descarta uma onda de invasões de prefeituras e agências bancárias da região.
As lideranças do MST e da Fetagri não aceitaram o aumento orçamentário de R$ 10 milhões proposto pelo Incra (passaria de R$ 68 milhões para R$ 78 milhões). Esse adicional seria destinado à melhoraria da infra-estrutura dos assentamentos, mas os trabalhadores dizem que é insuficiente. "Não dá para atender um quarto das famílias assentadas", explica o diretor nacional do MST no Pará, Jorge Neri, que passou o dia em São Paulo reunido com a direção do movimento.
Neri diz que nos últimos anos o governo federal promoveu no sul do Pará centenas de assentamentos. Mas a maioria desses agricultores nunca recebeu dinheiro de crédito, fomento ou habitação. Além disso, essas pessoas, segundo Neri, vivem sem energia elétrica, assistência médica e escolas. Santiago explica que as prefeituras dependem da verba do Incra para manter as estradas da região. Hoje, grande parte dos 219 assentamentos e acampamentos está ilhada por causa da precariedade das estradas. "Seriam necessários, no mínimo, R$ 200 milhões", diz.
"Há alguns anos, quando fazíamos mobilização, não conseguíamos reunir mais que 2 mil pessoas; hoje são 10 mil, 12 mil pessoas", lembra Neri. Essa falta de atendimento, diz ele, está refletida no acampamento montado na frente da sede do Incra
onde há três grupos distintos: assentados do MST, trabalhadores ligados à Fetagri e a outros sindicatos e um terceiro grupo que não é ligado a nenhuma entidade de classe. "O nosso pessoal recebeu crédito, conversamos sobre a redução do orçamento e tudo fica sob controle, mas, com os outros, não é assim: essa massa está desesperada e tenho medo do que pode acontecer", confessa Neri. Recursos - O presidente nacional do Incra, Nelson Borges, diz que essa região foi a que mais recebeu recursos nos últimos anos. "Entendemos que essa área merece atenção especial, mas temos limitações orçamentárias", admitiu na quinta-feira. As negociações entre a equipe do Incra e os movimentos recomeçam amanhã (08) a partir das 9 horas.
O Sindicato Nacional dos Produtores Rurais (Sinapro), que está com as contas bloquedas por determinação do juiz federal Guilherme Beltrami, da 1.ª Vara de Uruguaiana (RS), vai entrar terça-feira com pedido de prisão preventiva contra dois coordenadores regionais do MST: Raimundo Nonato e Eurival Martins. O presidente do Sinapro, Narciso Claro, diz que a intenção é coibir invasões.


