Decisões de Itamar irritam esquerda
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2000
Por Evaldo Magalhães 
Belo Horizonte, 25 (AE) - Duas medidas tomadas em menos de 20 dias pelo governador de Minas Gerais, Itamar Franco (sem partido), irritaram seus aliados de esquerda e podem provocar um racha em sua base de sustentação: o fim da moratória, decretado dia 6, depois de mais de um ano de brigas com o governo federal, e a nomeação de um general do Exército - e não de um integrante do PT, como era esperado -, para a Secretaria de Administração, na semana passada. Alguns políticos avaliam que as decisões enfraqueceram Itamar e põem em risco o plano de liderar uma eventual aliança de centro-esquerda na eleição presidencial de 2002.
A moratória durou oficialmente 13 meses, mas, na prática, não existiu. No período de suspensão do pagamento da dívida mineira com a União, de R$ 18,5 bilhões, o governo federal fez bloqueios de repasses para o Estado de mais de R$ 870 milhões. O montante foi equivalente às parcelas do débito que deveriam ter sido quitadas. No campo político, porém, a moratória serviu de bandeira para partidos de esquerda e para opositores do presidente Fernando Henrique Cardoso, que Itamar já criticou várias vezes.
Em recente reunião do diretório mineiro do PT, alguns participantes divulgaram carta aberta em que criticaram duramente o governador por ter se acertado com o Tesouro Nacional. Chegaram a propor o rompimento do partido com o Palácio da Liberdade. "Muitas pessoas que admiravam Itamar Franco pela postura firme que ele tinha em relação ao governo federal ficaram realmente decepcionadas", disse o deputado estadual Durval Angelo (PT-MG).
O parlamentar ressaltou, no entanto, que "a maioria do PT" em Minas não acredita que isso vá comprometer o apoio a Itamar. "Na verdade, há quem pense assim, mas nós entendemos que a moratória não duraria para sempre e o seu fim foi vantajoso para o Estado", acrescenta. Angelo citou, entre outros benefícios do acordo, a retomada de financiamentos de bancos internacionais para obras rodoviárias e projetos de educação em Minas, no valor de US$ 250 milhões. "Com a moratória, o Banco Central comunicou a entidades estrangeiras que o Estado estava inadimplente e os recursos de fora pararam de vir, situação que prejudicou muito Minas Gerais", afirmou.
Com a suspensão do calote, Itamar também pôde se reaproximar do governo federal, o que não agradou boa parte da esquerda e provocou críticas até da oposição. Menos de duas semanas após a assinatura do acordo da dívida, o governador esteve em Brasília para encontrar-se com o ministro da Saúde, José Serra. Pediu recursos para a construção de um laboratório em Betim e para reformas na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, sua principal base eleitoral. Foi a primeira vez, desde a posse, que o governador foi à capital federal reunir-se com um integrante do primeiro escalão de Fernando Henrique.
"O governador está mostrando toda a sua incoerência: diz que não precisava da União para governar e, assim que suspende a moratória, vai a Brasília pedir dinheiro para Juiz de Fora, onde seu grupo político perde cada vez mais força", alfinetou o deputado estadual João Leite (PSDB), o mais votado de Minas. Para Leite, a motivação de Itamar ao se reaproximar do Planalto é exclusivamente eleitoral, o que poderia reforçar o choque entre ele e os aliados de esquerda.
"O governador não quer comprometer seu projeto de eleger boa quantidade de prefeitos em Minas, pensando em sair fortalecido para a disputa presidencial."
General - A nomeação, no último dia 23, do general da reserva Carlos Patrício de Freitas Pereira, gaúcho e ex-comandante da 4ª região Militar, para a Secretaria Estadual de Administração foi mais um motivo de descontentamento para os partidos de esquerda, em Minas. O cargo era pretendido pelo PT, dentro da reforma de secretariado estudada por Itamar desde o início do ano.
Os petistas tinham como certa a indicação de um correligionário. "O governador vinha acenando com uma composição mais ampla com a esquerda e fez justamente o contrário", definiu o deputado estadual Rogério Correia (PT), líder do partido na Assembléia e, até pouco tempo, fiel às determinações de Itamar. Segundo o deputado, boa parte das forças que dão sustentação ao governador teme que a intenção dele tenha sido enfatizar "o lado mais conservador" do governo. "Foi uma atitude infeliz", ressaltou.


