Washington, 13 (AE) - A decisão da juíza federal Susan Webber Wright contra o presidente norte-americano Bill Clinton, que representa na prática uma condenação por falso testemunho numa ação civil e por desrespeito à ordem jurífica dos Estados Unidos
não deve afetar a capacidade do líder americano de conduzir a guerra em curso contra a Iugoslávia, especialmente se ele estiver correto em seu cálculo de que conseguirá produzir um desfecho aceitável para a Aliança Atlântica apenas com ataques aéreos.
Isso não significa, contudo, que os americanos discordam da juíza, que citou Clinton por ter mentido sobre suas relações com Monica Lewinsky no processo por assédio sexual movido contra ele por Paula Jones. "A razão da dificuldade de se ver um efeito político mais negativo nessa decisão é o pior possível", disse um ex-funcionário da administração. "O fato é que o presidente saiu tão enfraquecido e desacreditado do processo de impeachment que é difícil vislumbrar como algo relacionado ao affair Monica Lewinsky poderá desgastar ainda mais sua imagem."
O raciocínio é que a autoridade que Clinton está exercendo para tomar as decisões sobre o conflito nos Bálcãs emana do cargo que ele ocupa e do apoio popular à causa da Aliança Atlântica. As pesquisas de opinião indicam que perto de dois terços dos americanos concordam com os argumentos apresentados pelo presidente para justificar o envolvimento dos EUA no bombardeio e estão dispostos a manter essa posição, com a condição de que a Casa Branca produza o desfecho prometido num prazo relativamente curto.
Mas a duvidosa autoridade moral de Clinton, sublinhada pela decisão judicial desta semana, pode se tornar um problema se a guerra sair do roteiro escrito pelos estrategistas, exigir a mobilização de grandes contingentes de forças terrestres num conflito prolongado e a televisão passar a exibir imagens de soldados americanos feridos e mortos em combate.
A ironia da decisão de Wright é que ela se refere a uma violação da lei - mentir sob juramento numa ação civil - que serviu de base a um dos dois artigos de impeachment que a maioria republicana da Câmara de Representantes não aprovou, em dezembro do ano passado.
Ao determinar que o presidente desacatou o sistema judiciário e dizer que ele não tem apreço pelas leis que foi eleito para respeitar e defender, Wright assumiu a responsabilidade de aplicar a primeira e única sanção do poder público a Clinton por causa do escândalo Lewinsky. Além de ter de pagar os custos do processo, o presidente pode sofrer a humilhação adicional de ser proibido de usar seu diploma de advogado, se a Suprema Corte de Arkansas concordar com a decisão da juíza.
A Casa Branca evitou falar sobre o assunto hoje, alegando que a decisão de Wright está sendo analisada pelo advogado do presidente. Clinton tem 30 dias para apresentar recurso. Mas é improvável que o faça, pois não tem interesse em manter a sombra do escândalo sexual que já devastou sua presidência no momento em que lida com a mais grave crise externa desde que assumiu o poder, em janeiro de 1993.
Com toda a sua atenção voltada para a guerra nos Balcãs, Clinton discutiu hoje, durante mais de duas horas, com líderes do Congresso a aprovação de uma suplementação orçamentária de mais de US$ 3 bilhões para o Pentágono, para cobrir o custo do bombardeio aéreo.
O líder da maioria republicana na Câmara, Richard Armey, do Texas, indicou que a verba deverá ser aprovada em regime de urgência, depois que os legisladores identificarem os gastos que serão cortados em outras áreas para compensar o dinheiro já gasto na guerra contra a Iugoslávia.

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