Paris, 10 (AE) - O governo italiano de Alessandro DAlema vai regularizar a situação de 250 mil imigrantes. É uma surpresa: em princípio, o número de regularizações deveria ser de 38 mil, após um decreto do dia 16 de outubro.
Mas, duas surpresas modificaram esse programa: em primeiro lugar, o número de candidatos à regularização superou todas as previsões (300 mil) e, em seguida, um novo governo mais à esquerda instalou- se, recentemente, em Roma.
Ainda assim, a Itália foi generosa: dos 300 mil pedidos, 250 mil foram acatados, com a intenção de que, no futuro, anualmente, menores contingentes serão determinados. E será lançada uma ação severa contra as "máfias" que garantem, sobretudo a partir da Albânia, o encaminhamento dos clandestinos.
A opção da Itália contrasta com a dos socialistas franceses: na França, o número de pedidos de regularização foi de 143 mil, dos quais somente a metade foi regularizada. Dessa maneira, um grande número de imigrantes é, na França, conhecido (pois deixaram dossiês) e, ao mesmo tempo, "clandestinos". São os "sem documentos", que infernizam a vida francesa.
A decisão italiana, por mais generosa (e realista) que seja, tem consequências sobre os outros países europeus. De fato, pela convenção de Schengen, a livre circulação das pessoas entre a maior parte dos países europeus é garantida. Consequentemente, os imigrantes que a Itália acaba de regularizar têm o direito de entrar em um país vizinho.
Chega-se, aqui, a uma das anomalias mais chocantes da construção européia: de um lado, cada Estado define sua própria doutrina em matéria de imigração, mas, ao mesmo tempo, pela convenção de Schengen, há comunicação entre as diferentes populações de imigrantes.
Avaliemos a estupidez dessa situação: por um lado, os países são solidários e, por outro, são soberanos. O resultado é uma confusão dramática.
A decisão exemplar da Itália deveria reforçar aqueles que, há anos, advogam para que a União Européia se dote de um instrumento comum para receber estrangeiros. No momento, é uma "colcha de retalhos": os alemães ou os holandeses são abertos, liberais. A Itália junta-se ao pelotão dos generosos. Em compensação, a França, pusilâmine, desconfiada, "braços pequenos", escora-se em posições teóricas, jurídicas.
Mas há ainda quem seja mais severa: a Grã-Bretanha que, desde Tony Blair, tende a endurecer a legislação. E pior ainda, a áustria, que recentemente propôs ignorar a Convenção de Genebra que institui a proteção obrigatória dos refugiados. (A idéia austríaca provocou um tumultuado "protesto" e precisou ser retirada com a maior urgência).
O "cavaleiro solitário" da Itália põe novamente a questão lancinante: a Europa, que soube dotar-se de uma moeda única, que pretende avançar na via de uma diplomacia planejada, não deveria de maneira alguma manter legislações incompatíveis em matéria de imigração.
Mas, se negociações devem acontecer, podemos prever que serão caóticas, pois a questão dos imigrantes não é simplesmente econômica: é, antes de mais nada, uma questão que diz respeito à cultura, à sensibilidade, quase ao "inconsciente" coletivo.
E é claro que os "inconscientes" não são os mesmos em países como a França ou a Inglaterra, com pesado passado colonial, ou como a Itália e a Holanda, que passaram por experiências bem diferentes.

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