São Paulo, 13 (AE) - O comportamento do mercado ontem não foi condizente com o novo regime de câmbio flutuante adotado pelo Banco Central. A avaliação é do consultor Nathan Blanche, que estranhou o fato de as projeções de juros terem disparado ontem numa proporção mais forte do que o dólar. "Este seria um comportamento típico na política cambial de bandas, em que a variável era o juro e não o câmbio", disse Blanche. Agora, com o regime de taxas flutuantes, a principal variável passa a ser o câmbio, que deve se ajustar a eventuais impactos externos sobre o fluxo de capitais.
Quanto aos juros, o foco deve ser sobre a inflação, como o próprio Banco Central vem procurando afirmar. Nathan Blanche avalia que a volatilidade dos juros ontem no mercado pode ter sido causada por equívocos do próprio governo, que teria "forçado a mão" recentemente na colocação de títulos prefixado
levando o mercado a trabalhar com uma curva de alta dos juros e a ficar muito vendido. Com isto, houve falta de oferta de hedge, o que ampliou a volatilidade num momento de turbulência externa.
Neste sentido, o consultor considera acertada a decisão do Tesouro de suspender o leilão de LTN (papel prefixado) que estava previsto para hoje. O Tesouro correria o risco de não conseguir vender os títulos ou fazê-lo a uma taxa excessivamente alta, agravando as expectativas. Da mesma forma, Blanche acha que o BC também agiu corretamente ao reduzir de 63 para 28 dias o prazo das BBCs que vão a leilão na quinta-feira. "Com mercado turbulento e curva de juros ascendente, o melhor é trabalhar com pós-fixado ou prefixado curto", afirmou.
No caso de papéis de um ano, como as LTN que iriam a leilão hoje, por exemplo, Blanche considera que seria razoável uma taxa no patamar de 24%, e não os 26% pagos no leilão anterior e muito menos os mais de 28% que o mercado poderia pedir hoje. Com 24%, de acordo com Nathan, o comprador já teria um prêmio potencial de 600 pontos de PU levando-se em conta a possibilidade de o BC vir a baixar no futuro a Selic para 18%. "Alongar a dívida é bom, mas desde que o juro seja razoável", afirmou o consultor. Estas últimas ações do BC e do Tesouro, segundo o consultor, podem ajudar o mercado a perder a pressão que registrou na abertura de hoje, sobretudo nos juros. No câmbio as compras também tendem a diminuir e as cotações podem recuar hoje, mas Nathan adverte que, se o cenário externo prosseguir conturbado e o fluxo ficar negativo, a pressão no dólar deverá permanecer.

mockup