Santiago, 22 (AE-REUTERS) - A decisão da justiça britânica sobre a detenção do ex-ditador Augusto Pinochet colocará o governo chileno numa posição delicada em seu último ano de mandato, advertiram analistas.
Eles adiantaram que qualquer que seja a decisão do painel judicial da Câmara dos Lordes britânica, o presidente Eduardo Frei deverá enfrentar a situação com estatura de estadista a fim de conciliar os setores envolvidos, desde as Forças Armadas até seus parceiros políticos de esquerda.
Até agora Frei tem conseguido aplacar a tensão nas instituições militares, sem chegar a gerar tensões que rompam a coalizão de governo, na qual coexistem seu Partido Democrata Cristão com os socialistas.
Sua habilidade foi reconhecida nesta segunda-feira pelo comandante-em-chefe da Força Aérea, que elogiou os esforços de Frei para conseguir a repatriação de Pinochet.
Os lordes devem dar a conhecer nesta quarta-feira sua decisão sobre o recurso feito por Pinochet contra sua prisão em 16 de outubro em Londres, alegando que goza de imunidade na condição de ex-chefe de Estado.
Pinochet foi detido devido a um pedido da justiça espanhola, onde o juiz Baltasar Garzón leva adiante um processo contra ele por crimes contra a humanidade cometidos durante seu regime, de 1973 a 1990.
"O presidente pode pagar um alto preço político caso não controle a situação com estatura de estadista", opinou o analista Guillermo Holzman, da Universidade do Chile.
Os cenários à frente do país são que os lordes reconheçam a imunidade do ex-ditador e ele volte imediatamente ao Chile, ou que eles avalizem a detenção e Pinochet tenha de enfrentar o processo de extradição para a Espanha.
Qualquer das opções implica em riscos no panorama político do Chile, que em 1990 restabeleceu a democracia depois de 17 anos de ditadura de Pinochet e que em dezembro realizará eleições presidenciais.
As tensões ficaram evidentes depois que na semana passada o ministro das Relações Exteriores, José Miguel Insulza, reconheceu que um eventual regresso de Pinochet ao Chile trará mais complicações do que se ele permanecesse na Europa.
Sua opinião provocou reações de mal-estar na oposição direitista e nas Forças Armadas, que pediram explicações por sua declaração, segundo a imprensa local.
Se os lordes decidirem que Pinochet deve enfrentar o processo de extradição, "vai haver uma sombra permanente sobre a vida chilena, impedindo a consolidação democrática", opinou Holzman.
Ele antecipou que alguns setores veriam o desenlace como um triunfo da esquerda, mas converteria o ex-ditador num mártir para seus simpatizantes, e a decisão afetaria o desenvolvimento institucional do Chile.
No cenário adverso, as consequências políticas poderiam inclusive ser maiores para o governo com o regresso do general retirado de 83 anos.
"Geraria um debate interno sobre se ele pode ou não ser julgado e em que termos", sublinhou Holzman.
A administração do presidente Frei tem protestado contra a prisão de Pinochet argumentando que o estado chileno tem soberania para julgar os delitos cometidos em seu território e defendendo a capacidade de seu poder judiciário de fazer justiça ante os abusos atribuídos a ex-regime militar.
Assim, o regresso de Pinochet "complicaria o governo porque este se veria pressionado a fazer justiça", sustentou Holzman.
Para o senador Edgardo Boeninger, um democrata-cristão, o governo chileno deve manter os esforços para conseguir a repatriação de Pinochet, mas sem deixar de lado iniciativas em matéria de direitos humanos.
"No caso de Pinochet retornar ao país, deverá ser tomadas medidas prudentes mas concretas em matéria de direitos humanos e justiça", afirmou Boeninger.
Ele precisou que tais ações deveriam incluir a recoleta de informações sobre o paradeiro dos detidos desaparecidos, decisões sobre a justiça militar e colaboração para ativar os processos judiciais em curso.
Um eventual regresso do ex-ditador também obrigaria aos que aspiram a substituir Frei na presidência a incorporar o tema Pinochet em sua agenda, especialmente o socialista Ricardo Lagos e o direitista Joaquín Lavín.
Segundo Holzman, tal cenário abriria um debate político que conduziria a uma negociação sobre três temas: uma solução de Estado aos reclamos sobre direitos humanos e a definição do tipo de democracia que quer o Chile.
O terceiro ponto da negociação seria a visão dos direitos humanos em relação aofuturo para evitar que se repita o sucedido durante a ditadura.

mockup