DECIFRANDO AS LETRAS - PR tem uma Londrina de analfabetos
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terça-feira, 28 de junho de 2011
Davi Baldussi <br> Reportagem Local 
'Tudo e em possive com me esforso'. Esse é o título que José Ferreira da Silva, de 50 anos, daria para o livro da história de sua vida. Ele é um dos alunos mais avançados do Ensino para Jovens Adultos (EJA), de 1 a 4 série, na Escola Municipal Carlos Kraemer, localizada no Jardim Castelo (Zona Leste de Londrina). Ele espera em breve conseguir escrever exatamente o que tenta dizer: ''Tudo é possível com meu esforço''.
E muita gente no Estado enfrenta as dificuldades resultantes da falta de intimidade com as letras. No Paraná, existe uma Londrina de analfabetos. Os dados são do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São 506.178 pessoas, acima de 15 anos, que não conseguem nem mesmo escrever um bilhete simples.
A reportagem acompanhou uma aula de alfabetização do EJA, numa fria noite de terça-feira. Treze alunos, além de Silva, ocupavam a sala de madeira e ouviam atentamente as explicações da professora Elenice Simões Ribeiro, de Ibiporã.
Está enganado quem suspeita que os alunos são apenas idosos que nunca tiveram oportunidade de estudar. Tiago Lemes Pedro, de 15 anos, copiava lentamente a frase do dia que Elenice colocou no quadro: ''Protege-me, ó Deus. Em ti me refugio''.
''Entrei na escola com 8 anos, na 1 série. Mas a professora não me dava atenção. Falava para outro aluno me ensinar. Muitos colegas tiravam sarro de mim'', recorda. Lemes vivia com os pais e dois irmãos numa chácara em Carlópolis (Norte Pioneiro). ''Fiquei um tempo na escola, mas tive que sair para ajudar minha família trabalhando na roça'', conta.
Faz seis meses que Lemes mora com a família em Londrina. O pai trabalha na construção civil e a mãe é dona de casa. Ambos não estudaram. O adolescente trabalha o dia inteiro lavando carros e de noite frequenta as aulas do EJA. ''Não quero ser burro para sempre'', salienta.
Lemes retormou os estudos com o objetivo de conseguir ''algum trabalho melhor no futuro.'' ''Meu sonho? Acho que gostaria de ser soldado ou motorista de caminhão. Eu aprendo, mas esqueço rápido, me embolo tudo com as letra (sic)'', resume.
Desde 2005, Marlene Bueno, 40, frequenta as aulas do EJA. Apesar do longo período de aula, ela ainda não consegue decifrar o nome da linha de ônibus que precisa tomar. ''Nunca fui sozinha para o Centro de Londrina. Tenho medo de me perder'', comenta a diarista, que no momento está desempregada.
Assim como Tiago, Marlene acredita que a alfabetização abrirá as portas do mercado de trabalho. ''Qualquer trabalho hoje exige o fundamental pelo menos'', disse. Ela vem de uma família de nove irmãos de Tomazina (Norte Pioneiro). ''Não fui para escola porque meus pais não deixaram. Com 11 anos estava trabalhando'', conta.
Anedino Costa, 64, viveu o mesmo drama. ''Quero aprender a ler e a escrever principalmente para tirar carteira de motorista. Tenho carro, mas dependo dos filhos. Hoje mal assino o nome, não sei juntar as letras.'' Para Costa, quem não lê ''está cego.'' ''Não dá para fazer nada. Nunca tiraram sarro de mim, mas o pior é o seu próprio sentimento de não saber as coisas. Perdi muito serviço bom por causa disso'', afirma ele, que há três meses frequenta as aulas e pretende insistir no aprendizado.
O mais velho da sala é Raul Nairne, que apesar dos 84 anos e uma leve deficiência auditiva, insiste no aprendizado. ''Já fui em aulas anos atrás, mas parei. Um pessoal do bairro disse que tinha uma professora nova, então vim'', conta.
Para a professora Elenice, o trabalho é gratificante. ''A gente percebe que eles têm sede de aprender. Mesmo com frio ou chuva eles vêm'', declara.
Dono de uma padaria, José Silva conseguiu o que é praticamente um milagre para quem frequenta o EJA. Tirou carteira de habilitação. ''Fiquei meses decorando os livros, estudando direto. Faz pouco tempo que frequento aqui, quase tudo o que aprendi foi sozinho, com ajuda de colegas. Comecei com gibi, jornal e estou tentando aprender mais. Só para escrever que eu troco algumas letras'', diz.


