Cristina Charão e
Roldão Arruda
Agência Estado
Há quase duas décadas as estatísticas registram o envelhecimento da população brasileira. Já não há mais dúvidas quanto ao aumento da porcentagem de pessoas idosas. O que ainda não está claro é a consequência desse fenômeno para o País, em termos sociais e econômicos. Na opinião do geógrafo Odeibler Santo Guidugli, um estudioso do assunto, o debate está atrasado. Já passou da hora, segundo o especialista, de se estabelecer políticas públicas para enfrentar o envelhecimento.
Guidugli, que é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) acaba de concluir um amplo estudo sobre o crescimento da população de idosos em São Paulo. Ele verificou que as maiores taxas de envelhecimento populacional são verificadas nos pequenos municípios do interior, justamente aqueles com poucas fontes de arrecadação própria e, portanto, com menos recursos para dar bom atendimento aos idosos.
Considerando que São Paulo é o Estado com as maiores taxas de envelhecimento, pode-se dizer que o estudo é um retrato antecipado do que ocorrerá no resto do País. ‘‘O que está acontecendo aqui se repetirá daqui a dez anos na maioria dos Estados’’, diz Guidugli.
Em seu trabalho, o pesquisador da Unesp fez uma análise das estatísticas do IBGE para os 625 municípios existentes em São Paulo. Verificou que em 120 deles a taxa média de crescimento da população com mais de 60 anos já é o dobro da taxa que mede o crescimento total da população. Em determinados lugares vai além disso. É o caso do município de Rio Claro, na região centro-oeste do Estado, a 200 quilômetros da capital. Ali, a população cresceu 193% entre 1940 e 1991. No mesmo período, o aumento verificado no grupo de pessoas com mais de 60 anos foi de 536%.
A importância do contingente de idosos no conjunto populacional cresce ano a ano. Isso é empurrado pelo fato de as pessoas viverem mais – o que é positivo. Mas não é só. Guidugli também verificou que houve uma drástica redução no número de nascimentos em todo o Estado, com a consequente queda na porcentagem da população com menos de 14 anos. Em algumas cidades, somou-se a isso um acentuado êxodo de pessoas em idade economicamente ativa. São principalmente jovens que vão em busca de emprego em outras localidades.
‘‘O processo de envelhecimento ocorre quando a participação da população idosa cresce e a de um ano de idade diminui’’, diz o geógrafo. Um dos exemplos mais notáveis do que isso significa na prática está em São Caetano do Sul, cidade localizada na região do ABC paulista, com cerca de 120 mil habitantes. Ali, segundo os cálculos de Guidugli, para cada criança na faixa de 0 a 14 anos existem 7 pessoas com mais de 60. Entre 1980 e 1981, a população da cidade decresceu 0,8%. Mas no grupo dos idosos verificou-se um crescimento de 3,3%.
O fenômeno do envelhecimento populacional é mundial. A diferença é que no Brasil o processo está ocorrendo num ritmo maior do que o verificado em outras países, especialmente na Europa. É por causa disso, segundo o geógrafo Guidugli, que se torna urgente dar maior atenção ao problema. Ele chama a atenção especialmente para os pequenos municípios, com menos de 20 mil habitantes, que totalizam 66% do total existente no Estado.
Nessas localidades, segundo o geógrafo, nas quais pequenas variações nos índices de fecundidade e migrações aceleram ainda mais o processo de envelhecimento populacional, a arrecadação própria é pouco significativa. ‘‘São cidades que sobrevivem com as transferências de recursos dos governos federais e estaduais’’, diz ele.
Na opinião do geógrafo, as cidades devem passar por mudanças estruturais para atender melhor às necessidades dos idosos. Ele cita o exemplo de cidades da Califórnia, nas quais o trânsito foi modificado em função da circulação de velhinhos. As casas e prédios têm planejamento especial e as opções de atividades de lazer e produtivas são direcionadas para pessoas com mais de 60 anos. ‘‘Com tais modificações estas cidades estão atraindo idosos de outros locais’’, diz Guidugli. ‘‘Frequentemente são pessoas que têm dinheiro, o que isso significa o aporte de recursos para as cidades.’’
Entre as medidas que, segundo o geógrafo da Unesp, as cidades deveriam discutir, estão: a redução do número de leitos pediátricos nos hospitais e o aumento dos destinados à geriatria: construção de calçadas adequadas para idosos: modificação do funcionamento de semáforos, com um espaço maior entre as mudanças, para permitir a travessia dos pedestres; e organização de atividades culturais e de lazer mais adequadas aos idosos.
Na semana passada, a reportagem da Agência Estado visitou duas cidades relacionadas entre as que apresentam as maiores taxas de envelhecimento em São Paulo. Também foi feita uma visita ao município gaúcho de Feliz – apontado pelo IBGE como o que possui a maior porcentagem de pessoas com mais de 60 anos no conjunto da população, em todo o País (veja textos nesta página).