São Paulo, 18 (AE) - O debate sobre indexação de salários - com criação de algum mecanismo de recomposição automática de perdas, diante do aumento da inflação - deve agitar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) nos próximos dias. A declaração do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, na semana passada, de que essa discussão é "prematura", teve efeito inverso ao esperado: acirrou ainda mais os ânimos dos dirigentes sindicais. Eles estão preocupados com o aumento do custo de vida e a impossibilidade de obter, na mesa de negociação, a recuperação de perdas salariais que serão crescentes nos próximos meses. O desemprego e a recessão, dizem, impedem a livre negociação neste momento. A tendência é a Central entrar com tudo na luta pela reindexação dos salários.
Marinho, também da CUT, disse que qualquer sindicato vai buscar perdas salariais na data-base ou fora dela, mas ainda é cedo para decidir de que forma isso ocorrerá (com lei de repasse automático, gatilho ou instrumento similar), até porque, não se conhece hoje o tamanho da inflação que virá.
Para o sindicalista, melhor seria concentrar forças na luta pelo emprego e na pressão para que o governo impeça aumentos dos preços e reduza as taxas de juros, de modo a estimular a atividade econômica. Em resumo, uma briga contra a recessão.
Mas o pensamento de Marinho foi considerado equivocado por alguns de seus colegas. O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e vice-presidente da CUT, João Vaccari Neto, afirmou que para a CUT a palavra de ordem é "recuperação dos salários", que, segundo ele, no Brasil nunca foram nem causadores de inflação nem combustível para sua perpetuação.
Em momentos de recessão, diz Vaccari, os preços não caem porque as pessoas ganham menos, como pressupõem muitos economistas. As empresas simplesmente aumentam preços, esperando ganhar não por escala, mas pela alta rentabilidade em pequenas vendas - especialmente quando os importados perderam a competitividade. Recessão com inflação é uma mistura velha conhecida dos brasileiros, lembrou.
No caso do câmbio, especuladores continuarão a buscar lucros, pressionando para cima o preço do dólar em vários momentos. Quanto aos juros, o modelo da atual política econômica é de mantê-los nas alturas. Assim , segundo o sindicalista, o melhor a fazer com salários é buscar na lei a reposição automática para não permitir que a inflação provoque a transferência da renda dos mais pobres para os mais ricos - um dos seus perversos efeitos. Vaccari faz parte da Articulação, a maior facção política da CUT.
O diretor-executivo da CUT e do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Wagner Gomes, pertence à Corrente Sindical Classista, segunda maior força na Central, e fecha questão com Vaccari. "Salários no Brasil nunca tiveram absolutamente nenhuma responsabilidade no aumento da inflação." Ele afirmou que vai lutar pelo reajuste automático, previsto em lei, de preferência mensal.
"Salário congelado não provoca recuo nos preços", disse Gomes. "Tenho certeza de que a CUT defenderá a indexação porque toda lei em defesa dos salários é bem-vinda." Ele lembrou que a Central reúne 2,5 mil sindicatos, a maior parte sem poder de fogo para conseguir aumentos nas negociações num momento de recessão e desemprego. A CUT deve decidir nos próximos dias se defenderá a indexação por meio de lei ou não.

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