De volta para casa
Maringá Moacir toca violão em uma banda; Nelson gosta muito da comida de Natália, a cozinheira; Paulo César trabalhava em uma creche, ficou inteligente e virou office-boy. Evaristo era pedreiro de mão cheia e ajudou a construir o Shopping Maringá Park. Já Luiz Carlos gosta mesmo é de namorar. Telma não quer nem saber de voltar para a família em Pernambuco; Neide tem 57 anos e prefere ser chamada de "você", porque é solteira. Apesar das diferenças, todos os personagens citados têm uma história de vida em comum: têm idades entre 30 e 60 anos e passaram quase uma década internados em hospitais psiquiátricos. Hoje, moram em uma das três Residências Terapêuticas (RTs) de Maringá.
"Aqui é muito bom, bem diferente de lá [hospital psiquiátrico]. E vamos mudar de assunto que eu não quero mais falar nisso. Não gosto nem de lembrar. Hospício nunca mais", impõe Neide Juliana da Silva, de 57 anos, como condição para continuar a entrevista. Colocar uma pedra sobre o passado parece ser a melhor maneira encontrada pelos moradores das RTs para começar uma nova vida. A psicóloga especialista em Saúde Mental, Aparecida Moreno Panhossi da Silva, é a responsável pelas casas. A primeira, Residência Terapêutica Girassol, foi aberta em 2006, e hoje abriga cinco pacientes homens com casos mais graves. Em 2008, no outro lado da casa geminada, foi criada a RT Ingá, onde moram cinco mulheres. Por último, em 2011, a última RT Azaleias foi concluída. Lá, sete homens dividem a casa espaçosa com quatro quartos e até churrasqueira.
"Aqui eles resgatam hábitos que haviam sido perdidos dentro das instituições de internamento, como sair para fazer compras, ajudar na limpeza e até coisas mais básicas como se vestir", conta Aparecida. Segundo ela, ainda que os hospitais psiquiátricos tenham interrompido práticas condenáveis de tratamento, o respeito à individualidade é impossível quando se tem centenas de pessoas privadas de liberdade. "Aqueles que vivem nestas casa hoje são aqueles que chamamos de morador nos hospitais, que se perderam da família ou que não podem retornar para casa."
Em todo o Paraná, existem somente 20 RTs. Apenas Curitiba, Campina Grande do Sul, Maringá e Cascavel contam com estruturas do tipo. Segundo Aparecida, apenas os municípios que mantêm hospitais psiquiátricos podem montar uma RT. "Recebemos muitas ligações de secretarias de saúde de outras cidades à procura de vagas. Infelizmente não temos. Sempre aconselhamos que estes municípios também adotem suas RTs, mas isso depende muito do empenho do gestor", revela.
Aparecida conta que os primeiros anos de funcionamento das RTS não foram fáceis. "Teve muita pressão dos vizinhos que reclamavam que uma área nobre não era lugar para instalar uma RT, que os loucos iam agredir as crianças na rua. O pior disso tudo é que o preconceito, em muitos casos, partia até de profissionais da saúde", lembra. "É claro que há momentos de crises em que precisamos intervir, mas nunca tivemos casos de agressão dentro das casas. Eles respeitam as regras", garante.
Natália Policarpo de Matos, de 50 anos, é cozinheira na RT Azaleias. Ela conta como superou o preconceito. "Nos primeiros dias de serviço aqui eu chorava, queria ir embora. Depois, o apego a eles foi tão grande que já rejeitei proposta de emprego melhor. Amo isso aqui", conta. João Roberto de Oliveira, de 28 anos, vive a primeira semana como cuidador. "O estranhamento no início é normal, mas acho que vou gostar daqui. É uma experiência que ensina muito."
O fim da tarde se aproxima na RT Azaleias e Luiz Carlos Ig, de 50 anos, já se veste para sair namorar. Moacir Borges Carvalho, de 44, pega o violão para ensaiar novas músicas para tocar com a banda Delirius. Ele reúne gente para vê-lo tocar. "Hoje eu estou no céu aqui. Somos como uma família, um ajuda o outro. É muito bom ter com quem contar", comemora Moacir, após o último acorde no violão.(C.F.)





