Imagem ilustrativa da imagem De volta para a Casa
| Foto: Celso Pacheco
Irene Romeo volta no tempo ao rever prédio restaurado e que abriga hoje a Secretaria de Cultura e a Biblioteca Infantil de Londrina



"Que saudades! Que saudades!", foi assim que a professora Irene Renosto Belini Romeo, de 91 anos, reagiu ao voltar, a convite da FOLHA, para imóvel que abrigou a antiga Casa da Criança, onde lecionou por 15 anos. Esse retorno aconteceu 47 anos depois do fechamento da creche. Com lágrimas nos olhos, ela aparentava ter voltado no tempo ao rever o imóvel restaurado recentemente e que abriga hoje a Secretaria Municipal de Cultura e a Biblioteca Infantil de Londrina. "Estou recordando o passado, da época em que eu tinha o cabelo preto."



A Casa da Criança foi inaugurada em 1955 e começou a funcionar um ano depois, sendo considerada a primeira creche de Londrina. Irene conta que foi trabalhar lá para substituir a professora Maria do Rosário Castaldi. "Tem um colégio com o nome dela no Jardim Bandeirantes. Na época, lecionava no Colégio Newton Guimarães, na Vila Brasil, e fui trabalhar na Casa da Criança para que ela pudesse tirar uma licença-prêmio. Infelizmente ela faleceu, e a Terezinha Fernandes, esposa do prefeito Antônio Fernandes Sobrinho, não queria que eu saísse de lá. Acabei ficando por 15 anos na Casa, só saí quando foi fechada."

Ao entrar no espaço que fez parte de seu cotidiano por tantos anos, Irene apontou para o local que hoje abriga a Biblioteca Infantil. "Ali era o refeitório da criançada, onde elas tomavam o café da manhã e faziam outras refeições. Nós, os professores, não podíamos comer ali; tínhamos que comer em casa ou trazer a refeição", relembra. Entrando em uma área que hoje abriga um pátio, ela percebeu que o prédio foi modificado. "Eu não me lembro disso existir. Nesta parte envidraçada tinha uma parede e ficava ao lado da secretaria", explica.

A professora aposentada conta que cuidava das crianças de 5 a 6 anos do chamado Jardim de Infância. "Eram quase cem alunos. Dava para controlar todas porque revezávamos a cada três horas, e elas eram boazinhas e obedientes", recorda. "Eu ia à missa na Catedral às 7 horas e, às 8 horas, começava a dar aulas", acrescenta, contando que mantém a rotina de frequentar a Catedral. "Agora moro em uma chácara em Ibiporã, mas venho a Londrina todos os dias."
A imagem dos alunos na Casa da Criança está bastante viva na memória de Irene. "As crianças vinham com as roupas que elas tinham em casa mesmo e colocavam um guarda-pó verde, que era o uniforme delas", descreve. "Nós trabalhávamos a escrita e fazíamos brincadeiras", destaca. Sem livros para realizar as atividades, ela explica que passava as lições no quadro-negro. "Eu era caprichosa e alfabetizava todas elas. Quando chegavam na escola, já sabiam ler e escrever", diz, orgulhosa.

Ela se recorda com carinho de colegas da época, como Ignez Therezinha, esposa do colunista da FOLHA, Osvaldo Militão. "Foi um tempo muito bom", afirma. Passeando pelo solário, Irene relatou que as crianças ficavam no espaço somente de manhã, porque à tarde o sol era muito forte. "Neste período, elas dormiam. Cada uma tinha um colchãozinho. Para os alunos do maternal haviam berços. Era tudo muito bem arrumado."

As crianças atendidas na creche eram filhos de saqueiros dos armazéns de café e de empregadas domésticas. "As mães iam trabalhar tranquilas", garante. "Depois das aulas, eu andava com o motorista e visitava as casas dos alunos, que ficavam nas favelas de Londrina. Ia para a Vila Matos (onde hoje fica a rodoviária) e a Vila Santa Terezinha. Geralmente, quando tinha alguém em casa eram os homens que estavam descansando do trabalho. Eles eram atenciosos e educados", conta, ressaltando que todos eram muito trabalhadores e honestos.

Um dos dias mais tristes da vida de Irene foi quando foi anunciado o fechamento da Casa da Criança, em 1969. "Me transferiram para o Instituto de Educação Estadual de Londrina (Ieel) junto com uma outra professora, chamada Lourdes. De um dia para outro, as crianças ficaram desabrigadas. As mães não tinham mais onde colocar as crianças", relembra, emocionada.

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