De volta ao aconchego do útero
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sábado, 01 de maio de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Uma ideia aparentemente simples está mudando a realidade da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Há cerca de dois meses, os bebês prematuros que ficam em recuperação nas incubadoras ganharam um conforto extra. Além da temperatura constante que não os deixa sentir frio, do oxigênio extra que facilita a respiração e da atenção que recebem em tempo integral, eles agora permanecem todo o dia aconchegados em pequenas redes de pano, que reproduzem, em parte, o formato do útero materno.
Pequenos, mas com uma grande capacidade de demonstrar descontetamento quando não se sentem confortáveis, os bebês já mostraram que aprovam a nova tecnologia. Basta sentirem os confortáveis limites do tecido macio - que ficam ainda mais agradáveis com uma balançadinha - para entregarem-se ao sono. E assim, visivelmente à vontade, eles passam horas de merecido descanso, interrompido apenas por uma ou outra espreguiçada, alguns mililitros de leite materno, os cuidados da equipe de enfermagem e os carinhos da família, sempre muito bem-vindos.
A ideia de pendurar as redes dentro das incubadoras foi da auxiliar de enfermagem Isabel Terezinha Leli, que trabalha há 15 anos em UTI pediátrica e descobriu, na prática, que nenezinho também adora sentir-se protegido. ''Tínhamos aqui uma prematura extrema, que nasceu com 28 semanas de gestação (uma gravidez completa dura no mínimo 38 semanas), pesando 600 gramas. Ela ficou conosco cerca de três meses e recebia poucas visitas da família, por isso era muito agitada, não ganhava peso. Um dia, pensando em uma forma de deixá-la em uma posição mais confortável, peguei um pedaço de flanela usado como cueiro, fui até o setor de costura e pedi para que fossem colocados cordões nas extremidades, para que eu pudesse franzir o tecido e pendurá-lo. A nenê reagiu superbem, logo ficou mais tranquila e passou a se recuperar mais rapidamente'', conta Isabel.
A auxiliar de enfermagem nunca tinha ouvido falar do uso de redes em berçários. ''Acho que foi uma luz que recebi mesmo'', define. Mais tarde ela ficou sabendo que no Nordeste a estratégia já foi adotada por alguns hospitais. Por ser uma experiência recente, ainda não há estudos comprovando sua eficiência, mas já foi testada em cerca de 20 bebês, e em todos o resultado foi positivo.
''O recém-nascido tem lembranças da vida intrauterina, e tudo o que lembra este período lhe proporciona muito bem estar, fazendo com que ele gaste menos oxigênio e menos calorias. Com isso passam a ganhar peso e podem ir mais cedo para casa'', explica a enfermeira Maria Cristina Pereira, supervisora técnica da UTI Neonatal. Ela estima que sejam necessários pelo menos seis meses para mensurar os resultados da experiência. ''Por enquanto, o que mais importa para nós é diminuir o máximo possível o tempo de permanência dos bebês na UTI'', observa.
Por enquanto, como a experiência ainda é nova e não se sabe se a constante permanência nas redes pode causar algum prejuízo anatômico para os bebês, eles são mantidos ali somente durante o dia. O problema tem sido a choradeira que fazem à noite, quando são retirados das armações. ''Acho que vamos ter que inverter e deixá-los nas redes à noite'', brinca Maria Cristina, que já pensa na possibilidade de testar o método também com os casos mais graves, de bebês prematuros extremos. ''Talvez possamos aperfeiçoar a técnica e utilizá-la inclusive em pacientes entubados, quem sabe?''
Segundo a supervisora, os pais têm reagido bem à novidade, pois percebem o bem estar dos filhos. É o caso da comerciante Lilian Fontana Aguiar, que deu à luz os gêmeos Arthur e Heitor, que nasceram no último dia 18, de 32 semanas de gestação. Heitor, o menor deles, veio ao mundo com 1,560 kg e só se acalma quando colocado na rede. ''Eu conheci o método uns dias antes do parto, no período em que tive que ficar internada. Achei muito interessante, porque é uma forma de eles se sentirem mais aconchegados. Eu já sabia desta necessidade que eles têm, mas me surpreendi ao ver como os bebês ficam à vontade nas redes'', conta Lilian, que é mãe de primeira viagem.
O Hospital Evangélico (HE) de Londrina adotou a redes para recém-nascidos prematuros entre os anos de 2007 e 2008, depois que médicos da instituição conheceram, em um congresso, os resultados obtidos com o método em hospitais do Nordeste. Porém a avaliação da equipe médica foi que os benefícios ficavam mais no campo psicológico, por isso resolveu-se continuar investindo no método canguru (veja texto nesta página), considerado mais eficaz sob o ponto de vista clínico.


