Brasília, 26 (AE) - A multidão que mudou a rotina da Esplanada dos Ministérios hoje chegou a Brasília no começo da manhã. Por volta das 9 horas, grupos de manifestantes desembarcavam dos ônibus no Teatro Nacional e nas proximidades da Catedral. Além das faixas, bandeiras e camisetas com o slogan "Fora FHC", muitos carregavam máquinas fotográficas.
Com o trânsito interrompido em toda a Esplanada, as ruas próximas ficaram congestionadas, o que retardou um pouco a chegada dos participantes. Ao longo dos ministérios, um cordão de policiamento restringia o acesso aos prédios.
A três quilômetros dali, na frente do Palácio do Buriti (sede do governo do Distrito Federal), os ônibus eram saudados por cerca de 500 moradores da capital, a medida que passavam rumo ao Congresso. O grupo local, inferior aos 11 mil manifestantes previstos pelas lideranças sindicais, seguiu a pé, às 10 horas, até a Esplanada.
Críticas - Com idade e origem diversos, os participantes da marcha tinham em comum a crítica ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. O desemprego era um dos problemas mais lembrados - lembrando que a criação de postos de trabalho foi uma das promessas de campanha da reeleição de FHC. "Tanta mentira, a população está decepcionada com este governo", resumiu o frei capuchinho José Ferreira Pinto.
Em vias de fazer o vestibular, o estudante Venâncio Henrique Rodrigues, de 20 anos, disse temer por seu futuro profissional: "Não há vagas no mercado de trabalho", reclamou ele, que viajou 12 horas de Santa Luzia (MG) até Brasília em um ônibus da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Com Rodrigues, que faz parte de um conjunto de rap, vieram skatistas, patinadores e integrantes do movimento hip hop de Santa Luzia.
Na diversidade de estilos que desfilaram pela Esplanada, alguns grupos, vestindo camisetas da mesma cor, pareciam estar numa excursão. Era o caso de 90 servidores técnico-administrativos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, todos de vermelho, com um guia na frente, protestando contra a política econômica do governo. Mas não faltaram punks, anarquistas, roqueiros e idosos, sempre com uma crítica na ponta da língua.
"Tudo subiu de preço, menos o salário", observou a estudante Karina Azevedo, do Centro Educacional de Sobradinho (GO), onde não houve aula por causa da marcha. Na pipa vermelha que o vento levou às alturas no meio do gramado da Esplanada, o funcionário do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal Fluminense, Orlando Santos, escreveu "Fora FHC e o FMI". Ele disse estar passando a pior fase de sua vida: "FHC colocou a corda no nosso pescoço", afirmou Santos.
Enquanto lideranças partidárias começavam a discursar no palanque diante do Congresso, centenas de manifestantes faziam fila na porta dos banheiros instalados na Esplanada. "Vamos criar o Movimento dos Sem-Banheiro", brincou a estudante Juliana Pedrosa, de 18 anos, que veio de Goiânia para "fazer o Fernando Henrique mudar o rumo do governo". Juliana ficou mais de 20 minutos na fila. Ali perto, o mesmo ocorria diante de telefones públicos.
A Marcha dos 100 Mil não impediu o trabalho diário nos ministérios. Por medida de segurança, o acesso a alguns prédios ficou restrito a funcionários e a quem tivesse audiência marcada. Mas foi impossível ignorar o barulho dos fogos de artifício e dos milhares de manifestantes. No terraço dos ministérios, ao lado do pessoal de segurança, assessores diretos de alguns ministros acompanhavam o movimento.

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