De seu exílio em Cuba, militante observa as lutas do movimento
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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por James Anderson 
Havana (AE-AP) - Guillermo Morales guarda alguns arrependimentos sobre a luta armada pela independência de Porto Rico, sua arrojada luta com a justiça norte-americana e sua vida no exílio na Cuba de Fidel Castro. Mas o exílio tem seu preço: a redução do papel que Morales, uma figura-chave nas Forças Armadas de Libertação Nacional, ou FALN, aceita rancorosamente.
"Eu posso dar minha opinião, mas não posso dar ordens", conta Morales, 49 anos, com seu sotaque nova-iorquino, durante uma entrevistas na parte velha de Havana. "As coisas não podem ser feitas à distância, o que é frustrante. Muitas pessoas dizem que eu deveria estar lá".
Morales está entre as dezenas de fugitivos norte-americanos que vivem em Cuba, país que não tem relações diplomáticas ou tratado de extradição com os EUA. Outros são Joanne Chesimard, membro do Movimento Pantera negra e condenado pela morte de um policial de New Jersey e Michael Finney e Charles Hill, procurados pelo assassinato de um policial do Novo México e pelo sequestro de um avião com destino a Cuba.
Morales foi condenado a 89 anos de prisão, depois que uma bomba que ele estava preparando em Queens explodiu e destruiu suas mãos em 1978. Ele escapou do hospital Bellevue em Nova York em 1979. Para o governo norte-americano, a FALN esteve envolvida em mais de 50 explosões que resultaram na morte de seis pessoas e feriu dezenas nos EUA nos anos 70 e 80.
Morales viu de longe diversos colegas da FALN, que cumpriram uma média de 20 anos de prisão nos EUA, serem libertados recentemente sob o perdão oferecido pelo presidente Clinton. Uma dessas pessoas foi Dylcia Pagan, com quem Morales teve um filho.
"Você envolve-se em algo e tem que aceitar as consequências. Nem tudo sai da maneira que você quer", diz ele.
Seu filho, Guillermo, já o visitou diversas vezes. Mas ele não vê sua mãe, Lucy, que vive em Nova York, desde 1983. Eles trocam cartas, mas telefonemas são muito caros para o pequeno salário que ele recebe do governo cubano.
Curioso e ansioso por notícias, Morales tem cabelos levemente brancos. Uma cicatriz abaixo de seu queixo, resultado das queimaduras da explosão. Ele envolveu-se com o movimento pela independência quando era um estudante secundário em Nova York nos anos 60. Seu trabalho clandestino terminou quando a bomba explodiu.
"Eu estava perdendo todo o sangue. Eu apenas tentei me livrar de todos os comunicados que estavam lá, entende? Destruiu as evidências", conta ele.
Morales disse que pretendia cumprir a sentença federal de 10 anos, mas começou a organizar sua fuga quando foi condenado pela segunda vez por crimes de estado.
"Eu disse: É demais. Isso tornou-se abusivo". Morales fugiu para o México, onde disse que fez traduções e outros trabalhos para um movimento revolucionário no estado de Puebla. Ele foi preso em 1983 após um tiroteio que matou um policial.
Ele insiste que foi acusado injustamente. "Eu não tenho como usar uma arma", diz, indicando suas mãos arruinadas. Morales afirma que foi espancado e torturado nas prisões mexicanas.
Sua sorte mudou em 1988, quando o ministro do exterior mexicano concluiu que ele era uma vítima de perseguição política nos EUA e recusou-se a extraditá-lo. Morales foi colocado num avião para Cuba, irritando a administração do então presidente Ronald Reagan, que retirou temporariamente seu embaixador do México.
A Cuba comunista "foi o único governo que teve a coragem que me aceitar", disse. "Os cubanos sempre tiveram uma longa história de apoio à independência de Porto Rico e vice-versa".
Cuba e Porto Rico foram retiradas à força da Espanha pelos EUA em 1898. Os cubanos, que já estavam lutando pela independência, a conquistaram em 1902, apesar de Washington insistir no direito de intervir no país por décadas.
Desde a revolução de Fidel Castro em 1959, Cuba vem apoiando o movimento pela independência de Porto Rico, incluindo comunicados ao Comitê de Descolonização da ONU para reconhecer Porto Rico como uma colônia.
Em Havana, Morales recebeu tratamento médico, estudou economia, encontrou-se com grupos de visitantes porto-riquenhos e casou-se com uma cubana, Rosa. Eles tem um menino de 2 anos, Rodrigo.
"Eles tem me tratado com muito respeito e muita dignidade", disse ele sobre seus anfitriões cubanos.
Este ano, ele juntou-se aos esforços para persuadir rebeldes esquerdistas colombianos a libertarem Rosa de la Cruz, uma cidadã norte-americana de Porto Rico, que foi sequestrada por 110 dias. "Ela me telefonou na semana passada para agradecer", disse ele. "Isso foi realmente muito legal".
O tempo todo, Morales vem acompanhando com atenção os eventos em Porto Rico, incluindo a soltura dos membros da FALN. Críticos republicanos denominaram o fato como um "acordo pelos votos dos terroristas" para ajudar Hillary Rodham Clinton a ganhar votos de apoio dos hispanos na sua tentativa de conquistar uma cadeira no senado.
Morales diz que as eleições norte-americanas ofuscaram a questão central: o status não resolvido de Porto Rico. Ele também recusa o rótulo de "terrorista", argumentando que a causa, e seus métodos, eram justos.
"A situação colonial é um ato de violência em si mesmo", afirma. "Nós não somos anti-americanos, somos anti-imperialistas", acrescenta. "Isso inclui porto-riquenhos que apóiam o governo norte-americano".
Morales insiste que Porto Rico é uma despesa grande para os contribuintes norte-americanos, que enviam US$ 10 bilhões por ano para a ilha, cujos 4 milhões de residentes não pagam impostos federais.
Ele sugeriu que o movimento pela independência, que recebeu escassos 3% dos votos num plebiscito realizado na ilha em dezembro, sofreu uma divisão "histórica" entre seus líderes.
Em seu porto cubano, Morales não teme a extradição. "Isso depende de uma mudança do governo e eu não acredito que o governo vá mudar".
Ele insiste que não guarda arrependimentos. "Se você está realmente convencido de algo, se você realmente acredita em algo, por que deveria arrepender-se das coisas?", disse ele. "Eu não chorei por isso. Desde que eu perdi minhas mãos eu não tenho chorado. Eu nunca chorei por nada".


