Gestações na infância demonstram falhas como falta de informação, educação, acesso a anticoncepcionais e proteção contra a violência sexual
Gestações na infância demonstram falhas como falta de informação, educação, acesso a anticoncepcionais e proteção contra a violência sexual | Foto: André Borges/Agência Brasil



Macapá - Dois meses depois de ter contado para sua mãe que estava grávida, Maria, de 14 anos, deu à luz um menino. O filho nasceu prematuro - ela não sabe ao certo o tempo de gestação. O medo da reação da família e o constrangimento com a gravidez fizeram com que ela só tivesse feito duas consultas de pré-natal e não soubesse que desenvolveu hipertensão e uma infecção urinária que levaram ao nascimento prematuro do bebê.

Maria faz parte da faixa etária considerada por especialistas como a de maior vulnerabilidade gestacional, para a mãe e o bebê. Apesar do alto risco da gravidez em meninas com menos de 15 anos, o Brasil não avançou na última década na redução desses casos. Enquanto o País conseguiu reduzir o índice de bebês que nascem de mães entre 15 e 19 anos de 20,1% do total, em 2007, para 16,7%, em 2016, a mudança é lenta na faixa etária das mães mais jovens. Nesse mesmo período, a taxa de bebês nascidos no País filhos de meninas entre 10 e 14 anos oscilou de 0,94% para 0,85%, segundo dados do Ministério da Saúde.

Essas gestações demonstram uma série de falhas nos cuidados com essas jovens, como a falta de informação, educação, acesso a anticoncepcionais e proteção contra a violência sexual. Além dos riscos por fatores biológicos - já que muitas vezes o sistema reprodutor ainda não tem a maturidade completa -, especialistas apontam problemas ainda maiores nessa idade por questões sociais e comportamentais. Muitas jovens não têm compreensão sobre cuidados na gravidez, nem mesmo o entendimento sobre como ela ocorre.

Maria fez um teste de farmácia e, apesar do resultado positivo, esperou mais algumas semanas até contar para a família por acreditar que poderia não estar grávida. "Não senti nada durante a gravidez, nenhuma dor ou mal-estar. Até que um dia meus pés incharam, me deu tontura e fiquei enjoada. Cheguei no hospital e não saí mais daqui", disse ela, dois meses após o nascimento do filho e sem ter saído nenhum dia do lado dele na Maternidade Mãe Luzia, em Macapá, a única pública no Estado.

ACOMPANHAMENTO
O Amapá é um dos Estados que têm maior proporção de bebês nascidos de mães com menos de 19 anos - um em cada quatro. Enquanto o País registra 0,88% das crianças nascidas de mães com menos de 15 anos, o Estado tem proporção de 1,37%. Os médicos da Mãe Luzia admitem não conseguir dar a atenção devida para todas as adolescentes.

"Toda gravidez até 17 anos deveria ter acompanhamento de pré-natal de alto risco, mas não conseguimos fazer isso com todas as mães. Para dar conta, restringimos o alto risco para até 15 anos, mas ainda assim nem todas têm acesso", explica o médico Carlos Filho, diretor da unidade.

Prematuro, o bebê de Maria passou dois meses na UTI neonatal, entubado e medicado. Dados do Ministério da Saúde mostram que a situação da adolescente e seu filho não é caso isolado no País. O grupo das grávidas de 10 a 14 anos é o que tem a pior cobertura de pré-natal. Segundo especialistas, isso explica outros dados preocupantes da faixa etária. São 15,1 óbitos fetais a cada mil nascidos vivos - ante média de 10,9 no País. A taxa de bebês com baixo peso (até 2,5 quilos) é de 13,7%, ante 8,4% na média nacional.

ABANDONO
Joana engravidou aos 14 anos de um homem que conheceu em uma viagem, que fazia com a família, de barco entre o Pará e o Amapá. O homem tinha 32 anos e mudou de cidade quando ela contou que estava grávida. "Um homem crescido fugiu da responsabilidade e deixou a criança para uma menina criar sozinha. Isso não é certo, ele nem quis registrar a bebê, nunca deu nada pra ela", critica a mãe de Joana.

Para Anna Cunha, do Fundo de População das Nações Unidas, a responsabilidade pela gravidez e os cuidados com o bebê ainda recaem desproporcionalmente sobre a mãe. "Isso precisa deixar de ser visto como escolha ou responsabilidade individual. É dos sistemas educacionais e de saúde, da sociedade. Precisamos dar condições para que voltem a estudar, trabalhar, ter sonhos novamente."

Questionado pela reportagem sobre os dados, o Ministério da Saúde destacou a queda geral de gestações entre adolescentes, dos 10 aos 19 anos, mas não se manifestou sobre a faixa etária específica até 14 anos. A pasta atribui a redução à expansão dos programas Saúde da Família e Saúde na Escola, por terem aproximado os jovens dos profissionais de saúde, e a mais acesso a métodos contraceptivos e à informação. Também afirmou que, para aumentar a cobertura de cuidado pré-natal às adolescentes, trabalha com a busca ativa de gestantes "para que sejam acolhidas e recebam cuidados diferenciados, de acordo com as suas necessidades e demandas de saúde", diz a nota.

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