DE OLHO NO CÉU - Paraná é o terceiro em ocorrências aéreas
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domingo, 14 de agosto de 2016
Viviani Costa<br>Reportagem Local 


A explosão ouvida por moradores no limite entre as cidades de Cambé e Londrina na noite de 31 de julho revela um cenário desafiador. O avião que caiu sobre o barracão de uma transportadora e resultou na morte de oito pessoas, entre elas duas crianças e uma adolescente, passou a fazer parte das estatísticas do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado ao Comando da Aeronáutica, com sede em Brasília. Nos últimos dez anos, foram registradas 2.019 ocorrências aéreas no Brasil, o que equivale a três por semana. Os números incluem acidentes e incidentes aéreos, que são classificados de acordo com os danos causados nas aeronaves e o número de vítimas.
São Paulo lidera as estatísticas com 434 ocorrências, seguido por Rio Grande do Sul, com 169, e do Paraná, que teve 154 acidentes e incidentes entre janeiro de 2006 e dezembro de 2015. Para o major aviador Daniel Duarte Moreira Peixoto, porta-voz do Cenipa, o número de ocorrências registradas no Paraná se justifica, a grosso modo, pela quantidade de escolas de aviação e pela utilização de aeronaves na aplicação de defensivos agrícolas.
"A aviação é um sistema bastante complexo. É difícil a gente tentar achar motivos de uma forma bastante cartesiana, mas existem algumas características do Estado que propiciam esse tipo de ranking. O Paraná é muito rico dentro da aviação de instrução de voo e no setor agrícola. São duas atividades que, estatisticamente, geram uma quantidade um pouco maior de acidentes ou incidentes", explica. Erros na instrução de novos pilotos e falta de atenção às técnicas de segurança de voo podem resultar em tragédias.
No Brasil, 404 escolas de aviação civil estão cadastradas junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Grande parte dos estabelecimentos, 129 ao todo, funciona no Estado de São Paulo. Em Minas Gerais há 51 escolas e no Rio Grande do Sul, 46 estabelecimentos. O Paraná aparece em quarto lugar, com 36 escolas de aviação civil, cinco delas em Londrina, cidade campeã em número de ocorrências aéreas no Estado. Dos 154 acidentes ou incidentes registrados no Paraná, 23 foram em Londrina.
A cada ocorrência, profissionais de um dos sete serviços regionais de investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos, denominados Seripa, coletam dados, removem peças, analisam características do combustível utilizado e fotografam o local do acidente. "Em um segundo momento, o que se faz é uma análise dessas informações. É tentar montar o quebra-cabeça. A partir daquilo que foi colhido no local do acidente, é preciso interpretar o que aquelas peças querem dizer. É tentar recriar o evento para identificar quais foram os fatores que contribuíram para que o acidente ocorresse e, mais do que isso, o que poderia ter evitado o acidente", detalha o major.
Os relatórios regionais são encaminhados ao Cenipa e o órgão nacional, quando necessário, emite recomendações de segurança para evitar novos acidentes com as mesmas características verificadas pela equipe.
CAPACITAÇÃO
Nos últimos dez anos, o Paraná recebeu 135 recomendações de segurança, sendo 28 sobre instruções de voo. No entanto, como se tratam apenas de recomendações, não há obrigatoriedade e fiscalização no cumprimento dessas orientações. "O aluno é programado para errar. Ele vai errar e vai errar mais do que qualquer um porque ele está aprendendo. O que a gente tenta investir é na formação dos instrutores", comenta o porta-voz do Cenipa.
Oito recomendações de segurança encaminhadas a Anac e ao Seripa V (que atua no Sul do País) foram elaboradas após três acidentes registrados em voos do Aeroclube de Londrina. A escola criada em 1941 atrai alunos de todas as regiões do País e contabiliza 6 mil horas de voo por ano. "Temos profissionais bastante experientes, mas ainda é preciso criar uma cultura voltada à segurança de voo. Essa é a nossa preocupação constante", garante o presidente do Aeroclube, Jonas Liasch.
VOOS PARTICULARES
Oficiais do Cenipa (nacional) e dos Seripas (regionais) promovem palestras e simpósios sobre segurança de voo para conscientizar profissionais da área e chamar a atenção sobre os itens que precisam ser checados para evitar novas tragédias. Desde 2012, quando foram registradas 287 ocorrências aéreas no Brasil, o número de acidentes e incidentes tem diminuído gradativamente. Porém, a redução não é comemorada pelo órgão nacional, já que a quantidade de ocorrências não significa diminuição do número de mortes.
Segundo dados do Panorama Estatístico da Aviação Civil Brasileira, publicado no ano passado pelo Comando da Aeronáutica, 1.003 pessoas morreram em 1.198 acidentes aéreos registrados entre 2005 e 2014. Outras 2.810 pessoas saíram ilesas das ocorrências. Em, aproximadamente, 21% dos casos houve falha do motor durante o voo. Já a perda do controle da aeronave durante o voo foi constatada em 19% dos acidentes. Outros 13,5% foram ocasionados pela perda do controle da aeronave no solo, nos pousos ou decolagens. Cerca de 44% dos acidentes registrados nesse período ocorreram com aeronaves classificadas na categoria TPP (serviço aéreo privado).
A Anac informou, por meio de nota, que a "fiscalização sobre segurança é a prioridade da Agência e vai além das ações observadas nos saguões dos aeroportos, alcançando a certificação das aeronaves, a habilitação da tripulação e dos procedimentos de segurança adotados tanto pelas empresas quanto pelos aeroportos". Em 2012, a Anac criou a Gerência Geral de Ação Fiscal e 22 Núcleos Regionais de Aviação Civil (NURAC) para reforçar a fiscalização.


