"A faculdade não é um fim. Agora é que vai começar; agora é que vai ficar bom", diz Joel que, aos 65 anos, se prepara para atuar como professor
"A faculdade não é um fim. Agora é que vai começar; agora é que vai ficar bom", diz Joel que, aos 65 anos, se prepara para atuar como professor | Foto: Celso Pacheco


Há mais de cinco anos, Joel Viana Rabello ouviu um aforismo que o motivou a buscar uma outra direção para a sua vida. Alguém definiu como incompetência a tentativa de obter resultados diferentes fazendo as mesmas coisas todos os dias. Na época, ele estava insatisfeito com a sua realidade. Percebeu que se não transformasse sua conduta, continuaria reclamando da vida e da falta de oportunidades. Foi quando deixou de ser mecânico, arranjou um emprego como porteiro e, após 40 anos afastado das salas de aula, voltou a estudar.

Matriculou-se na Educação de Jovens e Adultos para concluir o ensino médio, cursou o pré-vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e, em 2011, aos 59 anos de idade, foi aprovado no curso de Ciências Sociais. No próximo dia 30 de agosto, Joel participa da solenidade de Colação de Grau e não esconde o contentamento de vestir a beca e receber o tão sonhado diploma. "A gente tem uma gaveta onde guarda os sonhos e, de vez em quando, tem que tirar os sonhos de lá."

Joel descobriu na academia um novo mundo que lhe desvendou o conhecimento acerca de assuntos sobre os quais sempre quis se aprofundar. A universidade, diz ele, superou suas expectativas. "Isso aqui é um espaço de aprendizado fortíssimo, onde você consegue ter um conhecimento muito grande da vida como um todo, do mercado de trabalho, do capitalismo."

A vida acadêmica, no entanto, não foi fácil e trouxe muitos desafios desde o início do curso. O maior deles era ter de trabalhar o dia todo, ir direto para a faculdade, sair da universidade por volta das 23 horas e, no dia seguinte, ter de estar bem cedo novamente no trabalho. Mas o longo tempo que permaneceu longe dos livros também trouxe alguns percalços. Joel se lembra, com bom humor, do primeiro trabalho entregue. "A professora falou que ia considerar que eu fiz, mas que não iria tocar a mão nele. Era muito mal feito, escrito a mão, sem capa. Fiz da maneira que eu achei que era. Não sabia que a academia exigia uma capa específica para o trabalho, que tinha que ser digitado e nas normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)."

Para superar as dificuldades, o apoio dos colegas de turma foi fundamental, reconhece Joel. "Tive o privilégio de encontrar aqui dentro da UEL jovens que estudaram comigo, a quem eu chamo de filhos, que foram meus parceiros. Assumiram minha causa, me ajudaram muito e interferiram diretamente no que eu estou conquistando hoje", disse. "Os professores também foram fantásticos. Eles não me favoreceram, creio que não porque até reprovei em algumas disciplinas. Mas tiveram um olhar diferenciado e foram muito pacienciosos comigo porque sabiam que eu não estava no mesmo ritmo dos outros colegas."

Mas Joel nunca pensou em desistir. "A gente tem filhos, tem um monte de pessoas que se tornam verdadeiros motores para você seguir. Aqueles que falaram que não adiantava, também são combustíveis. Aos que acreditaram em mim, eu tive que dizer que eles estavam certos. Aos que não acreditaram, eu tive que provar que eu era capaz", disse. "Algumas pessoas falaram: 'Joel, você está velho, vai estudar?'. A esses eu sempre respondi que quatro ou cinco anos passam de qualquer jeito. Se eu estiver estudando, vai passar. Se eu não estiver estudando, vai passar também. Então, eu vou correr atrás de uma coisa que quero fazer."

No dia 8, quando Joel foi à universidade para entregar o último trabalho da última disciplina, ficou emocionado ao relembrar de toda a trajetória percorrida até aqui. "Na hora em que eu cheguei ao carro para ir embora pensei que não era real e me emocionei. Daqui para frente eu tenho condições de construir uma nova fase da minha história."

Agora, perto de completar 65 anos, Joel se prepara para trocar de lugar, deixando de ser aluno para começar a atuar como professor de sociologia no ensino médio. Um amigo, dono de uma escola, ofereceu a ele uma oportunidade de estágio. "A faculdade não é um fim. Agora é que vai começar. Agora é que vai ficar bom", disse, sorridente.

Sobre a expectativa para a Colação de Grau, Joel também não esconde o orgulho de ter tido disposição para mudar o curso de sua vida. "Eu só via formandos de beca nos filmes. Agora sou eu o ator."

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