De maneira desastrada, Bolsonaro atropela ações de hospitais contra o coronavírus


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao defender o isolamento só daqueles do chamado grupo de risco, como idosos e portadores de comorbidades durante a epidemia da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atropelou de maneira desastrada algo que alguns membros da comunidade médica no Brasil já vêm discutindo nos bastidores.

Bolsonaro disse que os mais jovens, inclusive crianças, deveriam voltar a circular, a trabalhar e ir à escola, e que o isolamento deveria restringir-se às pessoas vulneráveis.



Alguns profissionais na linha de frente do enfrentamento da epidemia argumentam que isso seria catastrófico nesse momento, quando o país ainda se prepara para o aumento do número de casos.

Mas também uma possibilidade a ser discutida mais à frente, desde que algumas medidas fossem adotadas antes e premissas, consideradas.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), por exemplo, condenou a fala do presidente nesta quarta (25) e afirmou que, com os casos em franca ascensão e o sistema ainda se preparando, o isolamento é a "recomendação inequívoca" no momento.

"É inquestionável que se faz necessário medida para evitar o colapso total da economia e essas medidas precisam ocorrer de forma responsável", disse a Amib em nota. A entidade acrescentou que apoiará ações do governo no sentido da liberação "no momento correto".

Em três dos países que já têm dados suficientes para estabelecer de forma mais segura o perfil etário dos mortos pelo vírus (China, Espanha e Itália), os óbitos de pessoas abaixo dos 40 anos não supera 0,3% dos infectados. A taxa só sobe para ao redor de 1% para aqueles entre 50 e 59 anos, para depois aumentar rapidamente entre os mais velhos.

Os três países têm percentuais de pessoas acima de 65 anos maiores do que o Brasil (12%, 19% e 23%, respectivamente, ante 10%), o que deve levar, proporcionalmente à população, a mais mortos entre eles.

Para se ter segurança de que a divisão etária no Brasil seguirá o mesmo padrão desses países, porém, seria necessário esperar por uma base maior de óbitos que sustente essa premissa.

Outro ponto fundamental a ser atacado antes de se considerar qualquer liberação parcial dos mais jovens, segundo especialistas, seria massificar o número de testes para a Covid-19, algo que a Coreia do Sul fez com sucesso --a China também, embora em menor escala--, o que permitiu modular os impactos econômicos de maneira mais eficiente.

Ao identificar com mais exatidão onde os focos da doença se concentravam, foi possível deixar que outras regiões e comunidades inteiras pudessem circular e trabalhar mais livremente.

No Brasil, só a partir desta semana o Ministério da Saúde passou a priorizar a importação e o aumento, em massa, do número de testes --algo que vem sendo considerado um dos erros imperdoáveis da pasta até aqui no planejamento contra a epidemia.

Antes que os testes ocorram para valer, é impossível saber até se motoristas de ambulância, policiais e caixas de supermercado estão infectando outras pessoas.

Mas o ponto prioritário a considerar é o front de atendimento aos doentes. Acabar agora com o isolamento, como quer o presidente, provocaria estragos irreparáveis.

Os comandos dos hospitais ainda consideram essencial "achatar a curva" de infectados pela via do confinamento para que tenham tempo suficiente para preparar o sistema para quando a epidemia ganhar toda a força, repetindo os outros países.

Depois de mapear o número de leitos de UTIs em todo o Brasil, seu nível de ocupação e o que pode ser ampliado com o cancelamento em massa de cirurgias eletivas, a prioridade dos hospitais passou a ser identificar e organizar os ventiladores para respiração assistida, fundamentais para o tratamento dos pacientes graves --mesmo que fora de UTIs.

Nos epicentros da epidemia no mundo, têm sido demandados, em média, 2,4 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. O Brasil tem pouco mais de 2,1 por 10 mil, mas com distribuição regional muito desigual.

Também é muito desproporcional a divisão entre o que há no SUS (1 leito de UTI para cada 10 mil habitantes) e no sistema privado (4,8 por 10 mil segurados).

Assim, a adequação dos cerca de 57 mil leitos de UTIs existentes ainda vai levar algum tempo. Sobretudo porque 95% deles no setor público e 80% no privado já viviam ocupados antes da epidemia --algo que está sendo redimensionado agora com o cancelamento de cirurgias não prioritárias.

No caso dos ventiladores, o principal equipamento para tratar casos graves, o país tem quase 3 para cada 10 mil habitantes, em um total de 62 mil unidades.

A maior parte deles fica normalmente sem uso em leitos de UTI para pacientes internados não por causa do coronavírus. Por isso, eles estão sendo mapeados e preparados para ser transferidos para outras áreas em caso de necessidade.

Esses esforços logísticos vêm sendo executados neste exato momento. E saturar abruptamente o sistema como resultado da liberação geral de pessoas mais jovens às ruas comprometeria uma reorganização que leva tempo, com o esforço enorme de equipes hospitalares já trabalhando no limite.

Outro ponto fundamental, caso decisão nesse sentido seja tomada mais à frente, é como levar a sociedade a separar de forma radical a convivência das pessoas mais jovens dos que fazem parte dos grupos de risco, como os mais velhos e indivíduos com doenças pré existentes.

Embora qualquer discussão mais propositiva ainda deva esperar a adequação imperiosa dos pontos acima, sobretudo dos testes e do sistema de atendimento --além de ter de assumir o risco aos mais jovens e seus familiares--, médicos argumentam que uma crise econômica profunda também terá efeitos graves sobre a saúde, especialmente pela via da nutrição e da insalubridade de muitos ambientes domésticos durante o confinamento.



A grande pergunta agora é quanto tempo um país com quase 10% da população favelada, 38,3 milhões de informais e com rendimentos médios de R$ 820 na metade mais pobre, antes da crise, aguentará sem começar a sair à rua de forma desorganizada.

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