De La Rúa, sobriedade na Casa Rosada
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sábado, 23 de outubro de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 24 (AE) - Fernando De La Rúa costuma cortar seu próprio cabelo, alegando que "é pouquinho o que tenho sobre a cabeça". Seus amigos admitem que "Chupete", como é denominado carinhosamente, dá uma de "Figaro" para não gastar no barbeiro.
Sua fama de avarento é acompanhado pela sua escassa vontade de falar. Quase taciturno, a pedido de seu filho Antonio e seus assessores de imagem, De la Rúa fez um verdadeiro tour de force no último ano para poder contar piadas e ampliar em alguns milímetros o seu inexpressivo sorriso.
Sóbrio, utiliza impreterivelmente ternos cinzas ou azuis, e somente se dá ao luxo de relaxar quando ostenta um lencinho de seda no pescoço.
Seu único vício - descoberto - o esconde rigorosamente: fumar cigarrilhas holandesas "Agio". Somente quando não há câmeras por perto.
Além disso, De la Rúa possui uma "vaidade ao contrário": não tem vergonha de usar óculos (como ocorre com seu ex-adversário, o peronista Eduardo Duhalde), mas somente os coloca na hora de ler discursos, pois considera que lhe confere um "ar de estadista".
Ao visitar o Brasil, depois de assumir a prefeitura de Buenos Aires, em 1996, De La Rúa fascinou-se com o plano de descentralização administrativa de Porto Alegre, que aplicou em sua cidade. Em Curitiba, provou o empadão de palmito, e ficou encantado com o quitute.
Fanático pela ornitologia (trata com extremo respeito quem conhece o tema), o presidente recém-eleito possui em sua chácara de Pilar, galináceos de diferentes procedências do planeta. Um assessor confidenciou à Agência Estado que falta-lhe um exemplar tipicamente brasileiro: uma galinha dAngola. Também coleciona escudos dos países que visita. Outra paixão é o Boca Juniors, seu time do coração.
Aquele que tomará posse no dia 10 de dezembro como o quadragésimo- segundo presidente dos argentinos, nasceu em 1937 na cidade de Córdoba, no interior do país. Formado em Direito, fez pós-graduações na Itália e na Alemanha, e por isso fala o idioma desses países, além do inglês. Tornou-se militante da União Cívica Radical, e em 1963 começou sua vida pública como assessor do presidente Arturo Illía. O golpe de 1966 interrompeu sua carreira política, que retomou em 1973, ao ser eleito senador pela capital do país. Meses depois, foi o candidato a vice de Ricardo Balbín, líder histórico da UCR. Ambos perderam com 24% dos votos para o general Juan Domingo Perón, que obteve a avassaladora vitória com 61%.
Em 1983, liderando a corrente conservadora do partido - a "Línea Nacional" - perdeu a convenção interna da UCR para Raúl Alfonsín, da "Renovación y Cambio" para a candidatura à presidência do país. Nos anos que se seguiram foi senador, deputado e, em 1996, tornou-se o primeiro prefeito eleito de Buenos Aires. Da sacada leste da prefeitura, durante os últimos três anos, observou a Casa Rosada. No meio, estava a histórica Plaza de Mayo, centro das principais manifestações populares argentinas.
No dia 10 de dezembro, com seus sapatos número 42 dará os 425 passos que o separam da porta do palácio de governo para saudar os "Granaderos" - a guarda presidencial - então tornar-se o quadragésimo-segundo presidente do país. E o primeiro integrante da UCR que receberá o poder de um peronista.


