Buenos Aires, 18 (AE) - Deixar a solução dos conflitos comerciais pontuais do Mercosul para o setor privado é a proposta de Fernando De La Rúa, candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso à presidência da Argentina. Em uma entrevista exclusiva à Agência Estado, De La Rúa sustentou que é preciso que o Mercosul crie instituições que resolvam os conflitos que o setor privado não for capaz de auto-solucionar, de forma a permitir que os governos possam se dedicar às questões de natureza macro-econômica.
"O Mercosul precisa de encontros mais frequentes entre os governantes e também criar instituições que resolvam os conflitos de intercâmbio comercial, como um organismo de arbitragem", disse De La Rúa, acrescentando que esses órgãos "não podem ser burocráticos. Devem ser ágeis, para que nós governantes não tenhamos que nos preocupar muito como remover obstáculos e dificuldades alfandegárias".
De La Rúa considerou que a solução dos desequilíbrios macro-econômicos é um dos grandes desafios que os governos do Mercosul terão que enfrentar. O candidato reconheceu que a Argentina precisa diminuir seus custos de produção. Ele também indicou que está atento à existência de subsídios a produtos brasileiros: "essa é uma grande preocupação que cria desequilíbrios reais". Segundo De La Rúa, "esses são temas que os países precisam discutir para evitar que nos façamos danos mútuos e assim possamos crescer todos".
No entanto, o candidato da oposicão, que possui uma vantagem de 15 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto sobre Eduardo Duhalde, o candidato do governo, foi evasivo ao responder sobre as reivindicações argentinas de uma possível compensação comercial pela desvalorização do real: "Bem...isso irá sendo resolvido por acordos entre os setores empresariais, como as auto-limitações de importações. É um espírito positivo que não deseja causar prejuízos nem atacar a liberdade de comércio".
De La Rúa disse à AE que vai estreitar o diálogo e criar uma relação de melhor confiança no Mercosul, e que considera importante que os parlamentares também o façam. "Estou convencido que é preciso fortalecer a aliança estratégica do Mercosul. É preciso que ele seja para o bem de todos e para o mal de nenhum. Por isso, não há que transformá-lo em uma guerra econômica", disse. O candidato também defendeu que o Brasil e a Argentina tenham ações conjuntas mais intensas no cenário mundial. "O Mercosul é a melhor defesa para a perigosíssima volatilidade de capitais no mundo", afirmou.
A dupla cidadania para brasileiros e argentinos também está nos planos de De La Rúa: "E uma possibilidade, que implicará na livre circulação de trabalhadores". O candidato também pretende que os dois países intensifiquem sua integração militar, e inspirado nas unidades militares mistas franco-germânicas da União Européia, propõe a criação de unidades argentino-brasileiras.
Uma maior ajuda por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI), que já acenou com a possibilidade de um empréstimo extra de US$ 10 bilhões é analisada com cautela por parte de De La Rúa. "Quero ver qual proposta o FMI vai fazer", afirmou. "Temos que ter cuidado com os empréstimos contingentes, pois se a gente tem que usá-los, isso repercute negativamente. É melhor quando são tomados créditos de livre disponibilidade", sustentou. De la Rúa disse preferir os créditos do Banco Inter-americano de Desenvolvimento e do Banco Mundial, "pois eles trabalham com uma política de créditos de maior sentido social como a construção de moradias e a luta contra a pobreza".
De La Rúa criticou o anúncio do presidente Carlos Menem de que já estava em campanha para voltar à presidência no ano 2003. "Ele tem liberdade de fazer o que quiser e falar. Mas é uma falta de respeito com a democracia. Um presidente que está no fim do mandato deve se ocupar de presidir a transição política e não de de fazer campanha para daqui a quatro anos". Referindo-se à interferência de Menem no poder judiciário, o candidato classificou o presidente de "totalizador", mas negou que fosse "totalitário". Sabendo que não terá maioria na Câmara de Deputados, e que os peronistas dominarão o Senado, De La Rúa disse que "é um desafio, mas que faz parte do jogo republicano".
O candidato também se referiu ao ex-general golpista paraguaio Lino César Oviedo, afirmando que se sua situação ainda não estiver resolvida no momento de sua eventual posse, "terá que buscar outro país de destino". Segundo De La Rúa, "é preciso recompor as relações com o Paraguai e fortalecer a democracia desse país".

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